Capítulo UHL 1246 - Como Sempre
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Zao Tian não respondeu à última ofensa de Gold, e talvez fosse exatamente por isso que ela funcionou tão bem. Em outro momento, ele teria resmungado, teria bufado, teria dito alguma coisa apenas para tentar não deixar o mestre sair tão por cima. Contudo, ali, sentado no topo daquela montanha em Uhr’Gal, com a noite tomando o lugar do sol e a história inteira parecendo pesada demais para caber dentro de um único corpo, ele entendeu que aquela frase era o jeito de Gold dizer o que nunca diria. Não era um elogio, mas também não era desprezo. Era uma barreira. Era a forma torta, bruta e quase ridícula que Gold tinha de impedir que Zao Tian se acomodasse dentro da própria dor ou da própria promessa. Ele ainda o chamava de fraco porque acreditava que, se um dia parasse de fazer isso, talvez Zao Tian começasse a acreditar cedo demais que já era forte o suficiente. Por isso, Zao Tian apenas continuou olhando para o horizonte escuro, deixando aquela ofensa ficar entre eles sem se defender dela.
A noite tinha descido quase por completo, e o céu de Uhr’Gal, antes tingido de dourado e violeta, agora se abria em uma vastidão azul-escura, com estrelas surgindo aos poucos como pequenas rachaduras na sombra. O vento continuava frio, mas não agressivo. Ele passava pela montanha como se não soubesse nada sobre deuses, guerras ou legados. Para o vento, Gold não era o homem que quase destruiu o Salgueiro da Vida. Zao Tian não era um possível herdeiro do fim. Eles eram apenas duas presenças sobre uma rocha antiga, dividindo um silêncio que, por alguns minutos, pareceu mais sincero do que qualquer frase dita naquele dia.
Gold também não falou mais nada por um tempo. Ele permaneceu ao lado de Zao Tian com aquele corpo espiritual que parecia sólido demais para ser o que realmente era. A presença dele, mesmo quieta, ainda enchia o topo da montanha com uma densidade própria, como se a luz que ele carregava fosse pesada e ofuscante. Zao Tian sentia aquilo dentro de si, do lado de fora e em algum lugar entre os dois. Era difícil dizer onde Gold terminava e onde começava, pois, há muito tempo, a presença do mestre dentro dele tinha deixado de ser uma intrusão e virado uma espécie de cicatriz compartilhada. E agora, depois do que o Curupira contou, aquela cicatriz parecia pulsar.
Zao Tian decidiu, naquele silêncio, que faria exatamente o que Gold disse. Ele veria. Ele chegaria lá, se fosse capaz, e olharia com os próprios olhos antes de julgar. Não porque estava disposto a absolver Gold de qualquer coisa, nem porque aceitava a ideia de que certas respostas deveriam permanecer escondidas para sempre. Ele decidiu isso porque entendeu que, diante de verdades grandes demais, opiniões prematuras são apenas arrogância com outro nome. Ele não sabia o que Gold viu no fim do caminho. Não sabia o que havia diante do Salgueiro da Vida. Não sabia por que o último avanço falhou, se realmente falhou, ou se foi interrompido por algo que nenhuma pessoa comum poderia sequer conceber. Então, antes de condenar, ele precisaria alcançar aquele lugar. Antes de dizer que teria feito diferente, precisaria descobrir se ainda conseguiria dizer isso com a verdade diante do seu rosto.
Em algum momento, sem aviso, Gold começou a desaparecer. Não foi um sumiço brusco, nem dramático. Sua imagem apenas ficou menos densa, como uma chama que diminui sem se apagar de imediato. Ele ainda estava olhando para o horizonte quando suas bordas se dissolveram aos poucos, e Zao Tian não tentou segurá-lo. Não chamou. Não pediu mais uma resposta. Não perguntou nada. Gold tinha dito tudo que estava disposto a dizer, e talvez mais do que pretendia. Quando a presença dele finalmente desapareceu por completo, o topo da montanha ficou maior e mais vazio, como se o silêncio tivesse recuperado um espaço que pertencia a ele desde o começo.
Zao Tian permaneceu sentado.
Por um tempo, ele apenas respirou.
Então, quando a solidão ficou nítida o bastante para parecer uma companhia, ele falou sozinho.
"O que eu faço agora?"
A pergunta saiu baixa, quase engolida pelo vento. Não havia ninguém ali para responder, e talvez fosse justamente por isso que ele conseguiu fazê-la. Diante dos outros, Zao Tian costumava transformar dúvida em frieza. Diante de inimigos, transformava medo em violência. Diante de Gold, transformava insegurança em teimosia. Mas sozinho, naquela montanha, sem a necessidade de ser algo para alguém, ele podia deixar a pergunta existir como era. Crua. Sem pose. Sem resposta pronta.
"Para onde eu vou?" Ele continuou, olhando para as estrelas: "Por onde eu começo?"
As perguntas se acumulavam sem organizar um caminho. O universo tinha acabado de ficar maior e mais estreito ao mesmo tempo. Maior porque o passado revelado pelo Curupira mostrava camadas, causas, distorções e medos que Zao Tian nem sequer imaginava. Mais estreito porque, no fim, todas as linhas pareciam levar ao mesmo ponto: guerra. Ele tentou enxergar outra saída. Tentou, de verdade. Tentou imaginar alguma negociação, contenção, alianças, uma forma de impedir que a próxima catástrofe consumisse mundos inteiros. Contudo, cada pensamento voltava para a mesma parede. Os deuses estavam se movendo. Krishna tinha saído do lado do Pai de Todos. O panteão estava se coordenando. E quando seres daquele nível se movem com uma convicção absoluta de que a criação precisa ser controlada ou eliminada, não existe diálogo que dure muito.
"Não vejo solução além de vencer." Zao Tian murmurou.
Aquela frase não soou como bravura. Soou como derrota. Porque vencer uma guerra daquela escala não era um ideal bonito. Vencer significava sobreviver a um oceano de cadáveres. Significava aceitar que muitos morreriam antes que qualquer vitória tivesse forma. Significava imaginar cidades queimando, planetas quebrando, povos inteiros sendo forçados a escolher lados que talvez nem entendessem.
Zao Tian fechou os olhos por alguns segundos e tentou imaginar o número de vidas que uma guerra total contra os deuses arrancaria da criação. Ele não conseguiu. A mente recusava uma escala tão grande. Era fácil odiar os deuses quando eles apareciam como indivíduos diante dele. Era fácil querer matar Geb, Ares, Anubis, Zeus, Loki, qualquer um que colocasse as mãos sobre seu mundo. Difícil era olhar para o horizonte e entender que, entre ele e esses deuses, haveria incontáveis soldados, aliados, mundos, inocentes, fanáticos, covardes, crianças escondidas em porões, mães e filhos esperando retornos que nunca aconteceriam e povos que talvez nem soubessem por que o céu decidiu cair.
Zao Tian apertou os dedos contra a pedra.
"Eu queria evitar isso." Ele disse, como se confessasse algo vergonhoso: "Queria encontrar um jeito de cortar a cabeça do monstro sem fazer o corpo inteiro sangrar."
Contudo, não havia esse jeito. Ou, se havia, ele ainda não conseguia ver. Talvez Gold estivesse certo. Talvez algumas respostas só viessem quando o universo as enfiasse goela abaixo. Por enquanto, tudo que Zao Tian tinha era um mapa de ameaças, e o mapa parecia crescer a cada revelação. Uma guerra contra os deuses já seria a maior força que qualquer geração da criação poderia enfrentar, porém, como se isso não bastasse, a Trindade ainda estava solta em algum lugar, e a simples existência daqueles três fazia a nuca de Zao Tian coçar.
"Rachid, Samir e Amin..." Ele falou os nomes devagar, como se cada um fosse uma peça contaminada que precisava ser retirada do tabuleiro antes que apodrecesse o resto: "Vocês ainda estão por aí."
Ele estava certo e, se eles estavam por aí, o estrago não tinha acabado.
O pensamento seguinte veio com uma clareza incômoda. Geb também estava livre. Zao Tian não queria aceitar aquilo sem confirmação, mas a lógica era simples demais para ser ignorada. O selo que aprisionava Geb não era uma coisa qualquer. Pouquíssimos no universo teriam conhecimento, força ou natureza suficientes para interferir nele. Além dele e de Ming Xiao, os únicos que realmente poderiam quebrar aquele selamento eram justamente os três irmãos. Rachid, Samir e Amin. Eles tinham a técnica, a insanidade, os recursos e o tipo de ousadia que não recua diante de consequências universais. Se o objetivo deles era desestabilizar tudo, libertar Geb seria uma das jogadas mais evidentes e mais perigosas.
Depois de alguns segundos, Zao Tian abriu os olhos.
"Vocês soltaram ele, não soltaram?" Ele perguntou ao vazio.
O vazio não respondeu, mas ele não precisava de resposta para sentir o peso da possibilidade. Geb livre significava outra camada de caos. Significava uma força antiga, ligada à estrutura do cultivo, à limitação, ao controle e ao equilíbrio distorcido que pairou sobre a criação por eras. Significava que, enquanto Zao Tian tentava se preparar para uma guerra contra os deuses, havia uma força talvez ainda mais sutil se movendo fora do campo de visão. E o pior era que, com a destruição do Olho como organização, a Trindade tinha deixado de ser uma cabeça escondida dentro de uma estrutura gigantesca. Agora, eles eram pontos soltos. Independentes. Três irmãos com consciência compartilhada, domínio sobre sombras de informação e acesso a recursos que talvez ninguém tivesse mapeado por completo. Antes, era possível procurar bases, células, rastros logísticos, prisioneiros, padrões. Agora, eles podiam ser qualquer coisa em qualquer lugar.
"O universo é grande demais." Zao Tian disse, e havia raiva na voz dele: "Grande demais para três vermes se esconderem."
A frustração vinha justamente da desproporção. Se Samir estivesse diante dele, Zao Tian poderia tentar esmagá-lo. Se Rachid abrisse uma fenda na sua frente, ele poderia atravessar. Se Amin aparecesse em algum campo de batalha, ele poderia caçá-lo. Mas procurar três pontos conscientes em um universo vasto, com guerras se formando, um panteão se movendo, raças instáveis e alianças frágeis, era como tentar encontrar agulhas vivas dentro de um oceano que mudava de lugar a cada segundo.
"Eu preciso acabar com vocês." Ele murmurou: "Antes que vocês abram outra ferida."
A conclusão ele tinha, o problema era por onde começar.
Essa era a pergunta que retornava sempre.
Por onde começar?
Pelos deuses? Pela Trindade? Por Geb? Por Uhr’Gal, que ainda precisava ser estabilizado depois da presença do Curupira? Por Decarius, que provavelmente já estava sendo observado? Por todos os líderes que teriam que escolher lados antes que o panteão escolhesse por eles? Cada caminho parecia urgente demais. Cada caminho parecia atrasado demais. E esse era o tipo de pressão que esmagava uma mente de dentro para fora, porque não havia uma primeira decisão pequena. Qualquer escolha deixaria algo perigoso sem atenção.
Zao Tian passou a mão pelo rosto e soltou o ar devagar.
"É difícil." Ele confessou para ninguém: "É difícil ter que pensar nesses três enquanto os deuses se movem. É difícil ter que preparar uma guerra contra a força mais poderosa do universo enquanto três monstros podem aparecer pelas costas e cortar os tendões da criação."
Ele ficou mais alguns minutos em silêncio depois disso, encarando as estrelas. Aos poucos, a agitação dentro dele perdeu a forma de tempestade e se tornou algo mais frio. Não mais calmo, mas mais controlável. O tipo de coisa que não diminui, apenas se organiza. Talvez fosse isso que Gold queria dizer com continuar andando. Um passo. Depois outro. Não resolver tudo em uma noite. Não tentar carregar o universo inteiro com as duas mãos como se força bruta pudesse impedir todos os desastres ao mesmo tempo. Ainda assim, saber disso não tornava o peso menor.
Foi nesse momento que duas presenças se aproximaram.
Zao Tian sentiu antes de ouvir.
Ele não virou o rosto.
Ming Xue pousou primeiro, leve como sempre, sem quebrar o silêncio da montanha. Gu Ren veio logo depois, com a mesma discrição de quem entende que há momentos em que a amizade precisa chegar sem perguntas. Nenhum dos dois anunciou presença. Nenhum perguntou se ele estava bem. Nenhum exigiu explicações. Eles apenas caminharam até a pedra onde Zao Tian estava sentado e se acomodaram ao lado dele, um de cada lado, como se aquele lugar tivesse sido reservado para os três desde o começo.
Por um tempo, ninguém disse nada.
E aquele silêncio foi diferente de todos os anteriores.
Não era o silêncio cansado de Gold. Não era o silêncio solitário de Zao Tian falando consigo mesmo. Não era o silêncio pesado deixado pelo relato do Curupira. Era um silêncio compartilhado. Um silêncio que dizia que ninguém ali precisava fingir força o tempo inteiro. Ming Xue olhava para o horizonte com a serenidade de quem carregava as próprias guerras sem espalhá-las. Gu Ren mantinha o olhar para outro ponto do céu, mais distante, talvez lembrando de histórias, lutas e promessas que tinham começado muito antes de todos os presentes imaginarem onde aquilo terminaria.
Zao Tian sentiu, então, que não estava mais sozinho dentro do som de seu próprio coração batendo.
Ele estendeu a mão e segurou a de Ming Xue.
Ela entrelaçou os dedos nos dele sem hesitar.
O gesto foi simples, mas Zao Tian sentiu algo se firmar por dentro. Não como uma solução. Como uma raiz. Depois, ele olhou para Gu Ren, e, por um instante, a mente dele voltou para muito antes dos deuses se tornarem o centro de tudo. Voltou para o começo real da sua própria história. Para os dias em que não havia panteão diante dele, nem Salgueiro da Vida, nem Curupira narrando eras de tragédia. Havia apenas caminhos que se cruzaram, laços que nasceram em meio à dor e a perigos que hoje parecem brincadeira de criança, e três pessoas que, de alguma forma, continuaram retornando umas às outras, não importava o tamanho da guerra e da distância.
Zao Tian olhou para a esposa. Depois para o irmão de juramento. E finalmente falou, com a voz baixa, mas firme: "Tudo começou com nós três."
Ming Xue não respondeu de imediato. Ela apenas apertou a mão dele com um pouco mais de força, como se aquela frase tivesse alcançado um lugar profundo e quente dentro dela. Gu Ren inclinou a cabeça devagar, aceitando a verdade daquilo sem precisar enfeitá-la. Eles sabiam que muitas forças tinham moldado o caminho. Gold. Os deuses. O Olho. As guerras. As perdas. As alianças. Mas, para Zao Tian, o ponto de origem que ainda fazia sentido era aquele. Não era uma profecia. Não era um legado divino. Era um vínculo humano.
Gu Ren foi o primeiro a responder, olhando para um lado diferente do horizonte: "Sim."
Ming Xue, olhando para outro ponto, disse em seguida, com a mesma calma: "Começou."
Zao Tian manteve o olhar à frente, sentindo a noite envolver a montanha e as estrelas se multiplicarem acima dos três. Por um instante, ele pensou na guerra que viria, nos deuses, na Trindade, em Geb, em Gold, em Zaki, em Odin e em todos os nomes grandes demais que tentavam arrastar o destino para uma direção ou outra. Então pensou nos dois ao seu lado, e a enormidade de tudo aquilo perdeu um pouco da capacidade de esmagá-lo.
Gu Ren soltou um ar de forma curta, quase com um riso contido, e completou: "E vai acabar do mesmo jeito."
Zao Tian virou o rosto levemente para ele.
Ming Xue olhou para o horizonte e finalizou, como se não fosse uma promessa grandiosa, mas uma constatação simples: "Com nós vencendo."
Gu Ren assentiu: "Como sempre."
Zao Tian escutou, ficou em silêncio por alguns segundos, e, pela primeira vez naquela noite, a respiração dele não pareceu arranhar tanto o peito. A guerra ainda estava lá. O medo ainda estava lá. A Trindade, Geb, os deuses, Krishna, o Pai de Todos, todas as ameaças continuavam existindo e se movendo no escuro. Nada tinha sido resolvido. Mas, naquele lugar, entre a esposa e o irmão, Zao Tian lembrou que vencer nunca tinha sido uma coisa limpa na vida deles. Nunca tinha sido fácil. Nunca tinha sido garantido. Vencer, para eles, sempre significou continuar respirando quando o mundo inteiro achava que já tinham acabado. Sempre significou levantar depois de uma queda que deveria ser final. Sempre significou encontrar um jeito, mesmo quando o jeito parecia ridículo, insuficiente ou impossível.
Ele apertou a mão de Ming Xue.
Depois olhou para Gu Ren.
E, sem sorrir, mas com algo mais firme do que qualquer sorriso, Zao Tian disse: "Então vamos fazer como sempre."
Com aquela frase, a noite continuou silenciosa ao redor dos três, mas, pela primeira vez desde que o Curupira começou a contar o passado, Zao Tian não pensou no fim como uma sentença inevitável.
Pensou nele como um campo de batalha.
E campos de batalha, por mais cruéis que fossem, ainda tinham uma diferença fundamental em relação ao destino.
Neles, alguém podia vencer.
