Capítulo UHL 1248 - Dilema
[Capítulo semanal!!!
ATENÇÃO: LINK ATUALIZADO. Venham fazer parte da nossa comunidade no Telegram! https://t.me/+tuQ4k5fTfgc1YWY5
ATENÇÃO: OS EXEMPLARES FÍSICOS E DIGITAIS DO PRIMEIRO LIVRO DE O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ JÁ ESTÃO DISPONÍVEIS NAS MAIORES LIVRARIAS DO BRASIL E DO MUNDO. APOIE O NOSSO TRABALHO E GARANTA JÁ UM EXEMPLAR TOTALMENTE REESCRITO E REVISADO, E COM TRECHOS INÉDITOS.
Quer ver um mangá de O Último Herdeiro Da Luz? Então, a sua ajuda é muito importante para que possamos alcançar novos limites!
Para ver as artes oficiais da novel, que estão sendo postadas diariamente, siga a página do Facebook https://www.facebook.com/Herdeirodaluz
Ou a página do instagram https://www.instagram.com/herdeirodaluz/
Todas as artes e outras novidades serão postadas nas nossas redes sociais, e vêm muitas outras por aí, então siga as nossas páginas e não perca a chance de mostrar à sua mente qual é o rosto do seu personagem favorito!
Ps: Link do Telegram atualizado!
Tenham uma boa leitura!]
-----------------------
Krishna tinha acabado de dar um ponto final na discussão com Hefesto.
Hefesto entendeu isso no mesmo instante. E ele ainda tinha recebido autoridade total sobre recursos e qualquer estrutura divina necessária, mas aquilo não era um privilégio. Era uma condenação com forma de confiança. A partir daquele momento, cada alma consumida, cada corrente criada, cada rejeição contida, cada Tesouro Divino adicional colocado nas mãos de um Grande Deus teria a marca dele. E, se desse errado, não haveria espaço para desculpas.
Krishna não estava mais interessado em ouvir sobre limites depois daquela conversa. Os limites tinham sido apresentados. Krishna os tinha escutado. E, mesmo assim, tinha mandado seguir em frente.
Hefesto baixou a cabeça devagar em aceitação.
"Como ordenar." Ele disse.
Depois de escutar aquilo, Krishna então desviou o olhar de Hefesto e voltou a observar o Deus Protetor que permanecia próximo à entrada da câmara. Aquele deus estava rígido, tentando parecer disponível e invisível ao mesmo tempo, o que era uma habilidade comum entre Protetores que serviam em salas onde Grandes Deuses tomavam decisões. Ele tinha acabado de ver Hefesto receber uma missão absurda, Geb ser mantido sob observação, e Krishna falar como se a sobrevivência do panteão inteiro estivesse prestes a ser pendurada em uma ideia provavelmente louca. Mesmo assim, quando Krishna falou de novo, a ordem seguinte conseguiu fazê-lo ficar ainda mais pálido.
"Chame o Saci." Krishna disse.
Por instinto, o Deus Protetor não se moveu. O corpo dele ouviu a ordem, reconheceu a autoridade, preparou-se para obedecer… e então travou.
O motivo daquela reação era que Hefesto era um Grande Deus, mas era compreensível. Ele era perigoso, irritadiço, mas era uma figura que cabia dentro de certos protocolos de entendimento. Alguém podia ir até Hefesto, inclinar a cabeça, dizer que Krishna o chamava e sobreviver à tarefa sem que a alma tremesse de antecipação.
Contudo, com o Saci era diferente.
O Saci não era apenas um Protetor como ele, também não era exatamente um Grande Deus. Ele ocupava aquele lugar errado entre as categorias, uma exceção viva, ou quase viva, que fazia os deuses comuns sentirem que estavam diante de algo que o Salgueiro da Vida não apenas tocou, mas mastigou e cuspiu de volta com outra natureza. Ele era um milagre, uma ferramenta, um devoto e uma anomalia. Era um monstro de capa vermelha que ria, uma presença que muitos respeitavam sem saber se estavam respeitando a santidade ou sua loucura.
O Protetor abriu a boca, talvez para pedir uma confirmação, talvez para perguntar onde o encontraria, talvez para tentar explicar que aquela ordem poderia ser dada a outro.
Ele não teve tempo.
Krishna virou o rosto completamente para ele e xingou: "Está surdo?"
O Protetor fechou a boca no mesmo instante, inclinou-se com tanta pressa que quase perdeu o equilíbrio e respondeu: "Não, senhor."
Ele imediatamente saiu apressado, tentando não correr dentro da câmara, mas falhando no segundo corredor. Assim que atravessou os arcos e entrou na passagem principal do palácio, o controle que mantinha na postura se desfez. Os passos dele ficaram rápidos demais, o olhar começou a procurar ajuda antes mesmo de saber onde procurava, e a tensão no rosto revelou que a missão era simples apenas para quem não precisava cumpri-la.
Do lado de fora da ala central, ele encontrou outro Deus Protetor vindo em sentido contrário, carregando registros de Aasimares. O outro diminuiu o passo ao perceber a expressão do companheiro.
"O que aconteceu?" Ele perguntou.
O primeiro Protetor olhou para trás, como se Krishna pudesse estar escutando a distância apenas por vontade, e então se aproximou um pouco.
"Krishna mandou chamar o Saci."
O segundo Protetor parou. Por um instante, nenhum dos dois disse nada. Então o segundo sacudiu a cabeça em negação antes mesmo de o companheiro terminar de respirar.
"Não." Ele disse.
"Eu não pedi para você decidir." O primeiro respondeu, com a voz baixa e desesperada: "Estou dizendo que Krishna mandou."
"E eu estou dizendo que não ouvi." O segundo franziu o cenho e respondeu.
"Como assim não ouviu?" O primeiro questionou.
O segundo Protetor ergueu as mãos, ainda segurando os registros, e deu um passo para trás enquanto dizia em negação: "Eu não ouvi essa ordem. Eu não te vi hoje. Eu nem sei por que você está falando comigo."
"Você é um sem vergonha." O primeiro, irritado, acusou.
"Sou mesmo." O outro respondeu sem hesitar: "E vivo por causa disso."
O primeiro Protetor deu mais um passo na direção dele e, agora, pediu: "Você precisa me ajudar a falar com ele."
"Preciso de nada." O segundo respondeu.
"É uma ordem de Krishna." O primeiro avisou, de novo.
"Para você." O segundo afirmou.
"Para nós." O primeiro corrigiu, tentando dividir o fardo.
"Não." O segundo respondeu, apontando para ele em acusação: "Não tente distribuir essa desgraça que caiu sobre você. Você recebeu a ordem. Você ouviu Krishna. Você olhou para ele. Você respondeu. Eu, por outro lado, estava caminhando aqui, em paz, sem saber de nada, até você tentar arrastar minha existência para perto daquele louco."
O primeiro apertou os dentes e comentou: "Ele não é só louco…"
"Exato. É pior. Loucos pelo menos costumam ter algum padrão. Aquela coisa… Não dá para ser lida!”
A frase, dita naquele corredor claro do Reino Divino, carregou uma sinceridade quase infantil. E era justamente isso que revelava o desconforto real. Deuses Protetores tinham ido chamar Hefesto sem hesitar porque, apesar de tudo, Hefesto era uma autoridade compreensível. O Saci, não. Havia nele uma liberdade estranha, uma proximidade antiga com a Grande Mãe que fazia muitos Protetores evitarem até falar seu nome em tom errado. Ele podia rir de um mensageiro, ignorar um pedido ou simplesmente decidir que a vida de alguém era uma oferenda atrasada.
"Você vai me deixar fazer isso sozinho?" O primeiro perguntou.
"Vou." O segundo respondeu, já voltando a andar.
"Irmão..." O primeiro tentou chamá-lo.
O outro nem diminuiu o passo: "Não me chame de irmão quando está tentando me matar."
"Eu só preciso que você fique do meu lado." O primeiro pediu.
"Se você quer morrer, faça isso sozinho." Irredutível, o segundo finalizou.
"Covarde." Outra acusação saiu da boca do primeiro.
"Com prazer." O segundo, sem vergonha alguma, respondeu enquanto simplesmente se afastava e fingia que nunca teve aquela conversa.
O primeiro Protetor ficou parado por dois segundos, assistindo o companheiro desaparecer pelo corredor com uma velocidade que tentava parecer natural. Depois, ele olhou para a direção oposta, onde, em algum ponto do Reino Divino, o Saci poderia estar. A missão dada a ele parecia simples em termos administrativos: localizar, informar, retornar. Mas ninguém que conhecia o Saci pensava nele em termos administrativos.
Ele então respirou fundo… e depois começou a andar, com a expressão de quem seguia para um campo de batalha onde ninguém lhe dera uma arma.
---------------------------------------------------
Enquanto isso, muito longe dali, Uhr’Gal completava o terceiro dia desde a aparição do Curupira.
Três dias não eram muito para um planeta. Não eram muito para uma guerra em formação. Não eram muito para seres que mediam a própria existência em séculos e eras. Mas, para os orcs, aqueles três dias tinham sido suficientes para transformar pavor em vigília. O Curupira não havia partido depois de tudo. Também não havia descido. Ele permanecia estacionado na órbita de Uhr’Gal, distante o bastante para não ocupar o céu inteiro, mas grande o bastante para ser visto quando as nuvens se abriam. De muitos pontos do planeta, sua forma parecia uma pequena lua escura e viva, uma presença inacreditável pairando sobre o mundo como se o próprio espaço tivesse ganhado consciência.
A decisão de ficar ali não tinha sido tomada por impulso. Foi parte de um acordo difícil, costurado entre Zao Tian, Zargoth, Shara’Kala e o próprio Curupira depois de horas de discussão.
O Curupira sentia que Uhr’Gal era um ponto vital para sustentar a coalizão que a criação começava a formar. Não apenas por força militar, nem apenas pela quantidade de guerreiros orcs, mas pelo significado político. Uhr’Gal era um planeta que podia desmoronar por dentro ou se tornar um pilar externo contra o avanço divino. Se caísse, a coalizão perderia mais do que soldados. Perderia uma prova de que povos historicamente afastados ainda podiam se unir contra algo maior.
O Curupira queria defendê-lo; Zargoth queria proteger o planeta sem entregar sua soberania; Shara’Kala, por sua vez, queria garantir que nenhum deus, mesmo aliado, transformasse aquela defesa em uma coleira.
Zao Tian, analisando a situação sem todo o peso emocional dos outros, entendeu todos os lados. Por isso, a condição que ele sugeriu foi clara: O Curupira poderia permanecer em órbita, mas não interferiria em nada no planeta orc; Não daria ordens; Não corrigiria disputas internas; Não se envolveria em política; Não tocaria em cidades, clãs, khans, fortalezas, rotas ou tradições; Sua presença seria meramente uma segurança externa, não uma mão sobre o pescoço de Uhr’Gal.
Apenas em caso de ataque externo, invasão divina ou ameaça de escala equivalente ele poderia agir.
O Curupira aceitou aquelas condições. Talvez porque entendesse melhor do que qualquer um como começa a dominação quando alguém poderoso diz estar apenas protegendo.
Depois desses detalhes serem acertados, Zao Tian e os outros retornaram para Decarius.
O retorno deles não teve celebração, pois Decarius ainda carregava as marcas recentes de batalhas, perdas e reorganizações. O planeta respirava, mas não respirava tranquilo. Cada cidade protegida, cada fortaleza levantada, cada matriz reforçada, cada grupo de cultivadores em patrulha parecia existir sob a sombra de uma pergunta que ninguém tinha coragem de fazer em voz alta: quanto tempo até os deuses voltarem?
Com algumas respostas e novas perguntas na cabeça, Zao Tian não permitiu que a dúvida permanecesse sem direção por muito tempo.
Assim que retornou, ele e Ming Xiao solicitaram uma reunião com os principais líderes humanos. Aquilo que tinham ouvido do Curupira não podia ficar restrito ao grupo que esteve em Uhr’Gal. Os líderes precisavam saber, porque a história, naquele caso, era um mapa de guerra.
Os dois falaram do início da Grande Guerra, da visão do Fim dos Tempos, do medo do Pai de Todos, dos tratados de dissuasão, do papel do Reino da Luz, da ascensão de Zaki, do isolamento das nações, da caçada a Gold, dos alvos mapeados, da guerra de limpeza, do fim brutal no Reino Divino, da morte do Pai de Todos, do ataque ao Salgueiro da Vida, do colapso parcial do ciclo e das consequências que ainda moldavam o presente.
Cada parte abriu uma ferida diferente na sala.
Durante todo o relato, Daren permaneceu com o olhar frio, mas havia algo nele que parecia velho demais para ser surpresa. Talvez ele já tivesse intuído partes daquilo. Talvez conhecesse Gold o bastante para imaginar que a versão oficial jamais caberia na realidade. Ainda assim, ouvir a sequência inteira, com causas e consequências, era surreal.
Momoa ouviu com os braços cruzados, mas sua expressão mudou quando Pemma foi citado. Não por pena fácil, mas por reconhecer a ironia amarga de um tirano que, no fim, talvez tenha sustentado mais honestidade do que muitos santos.
Hakim permaneceu silencioso durante a parte dos tratados, e seus olhos ficaram mais duros quando Zao Tian explicou como os líderes foram forçados a aceitar a sobrevivência em troca de um cativeiro.
Para Hakim, que tinha quebrado castas dentro do próprio reino, aquilo não era uma abstração histórica. Era o mecanismo puro da dominação.
Yan Chihuo ouviu a parte de Zaki sem fazer piadas. E isso, para quem o conhecia, era quase um evento.
Yang Hao foi o primeiro a pedir detalhes sobre as alterações no nascimento dos sem-cultivo e o desaparecimento dos cultivadores da luz. Ming Xiao respondeu com cuidado, deixando claro o que o Curupira sabia, o que ele apenas suspeitava e o que ainda permanecia sem explicação.
Daren perguntou sobre Krishna, e Zao Tian explicou a ausência dele ao lado do Pai de Todos, sobre o comando atual do Reino Divino e o risco de que os deuses estivessem se movendo muito antes de a criação perceber a extensão real do problema.
Quanto mais falavam, menos aquela reunião parecia uma troca de informações e mais parecia um diagnóstico de atraso.
A criação estava atrasada.
Essa era a verdade mais dura.
Os deuses tinham tempo; Tinham o Reino Divino; Tinham Grandes Deuses renascidos e se fortalecendo; Tinham Krishna agindo por conta própria; E, talvez o mais perigoso de tudo, tinham a experiência de já terem perdido uma guerra assim uma vez.
A criação, por outro lado, tinha alianças recentes, desconfianças antigas, povos feridos, líderes orgulhosos, planetas instáveis e uma coalizão ainda frágil demais para suportar o próprio peso se fosse pressionada cedo demais.
Zao Tian deixou a explicação terminar antes de falar de novo. Ele olhou para Daren, Momoa, Hakim, Yan Chihuo, Yang Hao e Ming Xiao, e não tentou esconder o peso do que estava prestes a dizer.
"Nós estamos reagindo tarde." Ele disse: "Os deuses não começaram a se mover quando atacaram Decarius. Eles começaram antes. Muito antes. Eles conhecem o próprio medo melhor do que nós conhecemos a nossa urgência."
Aquela frase atingiu o centro da questão, e Zao Tian continuou: "Eles têm o tempo a favor deles; Têm recursos que nós ainda estamos tentando entender; Têm o hábito de pensar em eras, enquanto nós estamos tentando sobreviver a semanas."
"Se esperarmos o próximo ataque, eles vão ter o privilégio de escolher o lugar, de novo."
"Se esperarmos a próxima oportunidade, deixaremos que eles escolham o tempo."
"Se esperarmos a coalizão ficar perfeita antes de tomar alguma ação, talvez ela morra antes de aprender a andar."
"Nós… Toda a criação… precisamos discutir seriamente a possibilidade de um ataque preventivo."
A forma com aquela frase foi dita não soou nem de longe como um mero desejo. Aquilo estava mais para uma necessidade.
"Eu não estou dizendo que vamos marchar amanhã." Ele continuou: "Não estou dizendo que vamos jogar uma coalizão frágil contra o Reino Divino porque estamos com medo. Mas precisamos considerar a ideia de atacar antes que eles terminem de preparar o que quer que estejam preparando."
Ele olhou para cada um deles e numerou: "Antes que Krishna consolide o panteão."
"Antes que Geb e o que ele sabe sobre o passado sejam usados contra nós."
"Antes que a Trindade ganhe força para nos atrapalhar de novo."
"Antes que os deuses escolham o próximo alvo."
A menção à Trindade fez Yang Hao ficar ainda mais sério, mas Zao Tian não desviou para explicar de novo. Todos ali já entendiam que Rachid, Samir e Amin eram uma ameaça independente, uma lâmina solta que podia cortar qualquer plano se fosse ignorada.
"Eu quero consultar vocês primeiro." Zao Tian disse: "Antes de levar essa proposta para a coalizão."
A escolha da palavra consultar importava. Ele não estava exigindo concordância. Não ali. Não ainda. Porque a coalizão era frágil demais para nascer sob imposição, e Zao Tian sabia que, se entrasse diante de orcs, humanos, gigantes, krovackianos e outras raças dizendo apenas “vamos atacar”, ele repetiria, em outra direção, a arrogância dos deuses que tanto odiava.
"Se levarmos isso para todos sem um alinhamento mínimo, a proposta afundará a coalizão enquanto ela ainda toma forma." Ele continuou: "Alguns vão chamar de suicídio; Outros vão chamar de necessidade; Outros vão achar que queremos usar os povos deles como escudo para Decarius; E alguns vão ter razão em desconfiar."
A honestidade da última frase incomodou a sala, mas também a tornou mais real.
Zao Tian, por sua vez, apoiou as mãos sobre a mesa e falou: "Então eu vou perguntar primeiro aqui…”
"Existe outro caminho?"
Ninguém respondeu imediatamente. E Zao Tian, sem elevar a voz, completou: "Eu desejo, do fundo do meu coração, que, dentro da realidade, algum de vocês tenha uma ideia ou visão melhor do que a minha, porque, se não houver, eu temo que nós precisaremos parar de agir com cautela…”
“Eu me sinto mal em dizer isso, mas… Diante do problema que temos agora, está na hora de pararmos de pensar em se vamos ou não ter perdas de vidas… E começarmos a decidir quantas vidas serão sacrificadas.”
Ao cair daquelas palavras, a luz da sala pareceu fria demais. E, pela primeira vez, a possibilidade de atacar os deuses antes que eles atacassem deixou de ser uma ideia impensável e virou uma decisão aguardando a coragem necessária de ser tomada.
