Capítulo UHL 1249 - O Que Ninguém Quer Enxergar
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A pergunta de Zao Tian não encontrou uma resposta imediata.
"Existe outro caminho?"
Aquela frase ficou sobre a mesa como uma lâmina que ninguém queria tocar. Não porque faltassem líderes ali. Pelo contrário. Aquela sala concentrava algumas das maiores vontades humanas ainda vivas, homens que já tinham sustentado reinos, planetas, guerras e povos inteiros nas costas. Daren, Momoa, Hakim, Yan Chihuo, Yang Hao, Ming Xiao e os demais presentes não eram pessoas acostumadas a fugir de decisões difíceis. Ainda assim, havia uma diferença enorme entre decidir uma batalha e decidir o formato de uma guerra que poderia engolir a criação inteira.
O silêncio que veio depois não foi covarde. Foi cálculo.
Cada um deles estava medindo, com as próprias referências, o tamanho do abismo colocado por Zao Tian. Um ataque preventivo contra os deuses não era apenas uma operação militar. Era uma declaração universal de que a criação não esperaria mais ser escolhida como alvo. Era uma inversão da postura histórica dos povos, que sempre reagiram ao panteão quando foram atacados, oprimidos, cercados ou traídos. O que Zao Tian colocava na mesa era essa outra coisa. Era atravessar a distância primeiro. Era entrar no terreno do inimigo antes que o inimigo escolhesse o próximo céu a ser partido.
Daren foi o primeiro a falar: "Existe um problema que você está colocando de lado rápido demais."
A voz dele não era acusatória, mas, sim, fria, reta, como uma parede sendo erguida no meio da sala. Zao Tian olhou para ele sem se ofender, porque sabia que Daren não falaria para algo para negar simplesmente por medo. Se Daren levantava uma objeção, ela merecia ser ouvida.
"Krishna." Daren disse.
A simples menção daquele nome mudou a densidade da discussão. Não era um Grande Deus comum, nem um adversário que pudesse ser tratado como mais uma peça no tabuleiro. Krishna, naquela configuração atual, era o centro prático do panteão. O Pai de Todos dormia. Heimdall estava preso. Geb havia retornado, mas era uma variável instável. Os outros deuses podiam ser fortes, violentos ou perigosos, mas Krishna era diferente. Krishna era a barreira que segurava o impossível. Krishna era o guardião que já tinha sustentado a presença esmagadora do Pai de Todos. Krishna era, em termos simples, o ser que todos ali sabiam não ter como enfrentar de forma direta naquele momento.
"Um ataque ao Reino Divino vai desencadear uma reação dele." Daren continuou: "Isso não é uma mera possibilidade. É uma certeza."
Zao Tian permaneceu calado, escutando.
Daren prosseguiu, sem desviar o olhar: "E eu vou ser claro, porque não tenho paciência para orgulho em um assunto desse tamanho. Eu não acredito ser capaz de encará-lo se for necessário."
A frase atravessou a sala de um jeito estranho. Daren não era alguém que admitia limite com facilidade. Ele também não era alguém que precisava fingir grandeza. Sua presença, sua história e o terror que seu nome carregava entre povos inteiros eram suficientes para que qualquer confissão de incapacidade soasse mais grave do que mil alertas vindos de outra boca. Se Daren dizia que não acreditava poder enfrentar Krishna, então não estava sendo prudente. Estava sendo preciso.
"Hoje…" Daren continuou: "Não existe nenhum ser na criação capaz de enfrentá-lo e sobreviver. Não de frente. Não por tempo suficiente para impedir que ele faça o que quiser."
Essa era a parte que não podia ser contornada por discursos.
A criação tinha Santos. Tinha monstros. Tinha cultivadores absurdos, linhagens poderosas, armas do Espírito, alianças recentes e indivíduos que poderiam, em condições específicas, rivalizar com Grandes Deuses. Mas Krishna não era uma comparação justa. Krishna era uma diferença de categoria. E, enquanto ele existisse como resposta imediata do panteão, qualquer ataque preventivo carregava dentro de si a possibilidade de virar massacre antes de produzir algum resultado.
Yang Hao concordou com um movimento lento da cabeça.
"Daren tem razão." Ele disse.
A voz dele carregava outro tipo de peso. Não o peso de quem temia Krishna por ter medido sua aura diretamente naquele dia, mas o peso herdado de uma história familiar que ainda doía na espinha da Dinastia Yang.
"Meu pai me contou sobre isso." Yang Hao continuou: "O antigo imperador da Dinastia Yang, não ficou fora da Grande Guerra por covardia. Ele odiava os termos dos deuses. Odiava a ideia de aceitar um tratado que colocaria nosso povo sob vigilância, limitação e humilhação por gerações. Mas Krishna foi até ele."
A sala ficou mais quieta.
Yang Hao apoiou as mãos sobre a mesa, e os olhos dele pareciam olhar para um passado que não viveu, mas que recebeu como herança.
"Meu pai disse que, naquele dia, entendeu o verdadeiro significado de desespero. Gold e Amara estavam desaparecidos. Não havia ninguém para equilibrar o tabuleiro. Daren já tinha fechado suas portas. Halfkor e Moira estavam distantes e não eram capazes de enfrentá-lo. Elijah não se envolveria. E então Krishna apareceu diante dele com um tratado nas mãos e o peso do panteão inteiro atrás da voz."
Ele respirou fundo.
"Meu pai era orgulhoso. Forte. Tinha senso de certo e errado. Mas ele também amava o povo dele mais do que amava a própria dignidade. Quando Krishna mostrou a diferença real entre eles, meu pai percebeu que lutar naquele momento não seria resistência. Seria suicídio coletivo."
Yang Hao ergueu o olhar para Zao Tian.
"Ele aceitou o acordo porque foi esmagado pela certeza de que não havia esperança. E, pelo que você está propondo, nós podemos estar nos colocando diante da mesma sensação. Atacar o Reino Divino pode fazer Krishna aparecer diante de nós antes que tenhamos qualquer resposta para ele."
Zao Tian ouviu sem interromper. Ele não gostava da objeção, mas não podia chamá-la de errada. Krishna era, realmente, uma impossibilidade no caminho. E talvez fosse justamente por isso que esperar era tão perigoso.
"Eu entendo." Zao Tian disse: "Eu sei que Krishna é um elemento que não pode ser parado agora. Se ele aparecer no campo de batalha, qualquer plano pode desmoronar. Eu não estou ignorando isso."
"Então por que propor um ataque?" Hakim perguntou.
A pergunta não foi agressiva, mas foi direta.
Zao Tian olhou para ele e respondeu: “Porque o tempo sempre foi favorável aos deuses. E agora ficou pior."
"Eles estão se fortalecendo. Estão reorganizando o panteão. Estão usando Geb. Estão sob o comando de Krishna, que não parece disposto a esperar que a criação se prepare. E, se seguirem o padrão do passado, eles vão agir primeiro de novo. A diferença é que, dessa vez, ninguém sabe quando."
Ming Xiao completou, com a serenidade fria de quem vinha alinhando essa conclusão desde o retorno: "A vantagem deles não é apenas força. É iniciativa. Se eles escolhem o primeiro alvo, eles escolhem também o tipo de guerra que vamos lutar."
Zao Tian assentiu: "Exatamente."
Daren permaneceu sério: "Isso não muda o problema do custo."
"Não." Zao Tian respondeu: "Mas muda o problema da passividade."
Hakim cruzou os braços: "A questão é que não estamos falando de mobilizar soldados comuns. Um ataque ao Reino Divino, ou a qualquer ponto onde Grandes Deuses estejam concentrados, exigiria Santos. Muitos. E forjar Santos não é uma tarefa simples. Menos de um em cada milhão chega lá, quando chega. E, mesmo entre aqueles que alcançam esse estágio, poucos são realmente úteis contra deuses desse nível."
Yang Hao continuou a linha: "Cada Santo morto é uma perda estratégica absurda. Não é como perder cem bons soldados e treinar outros cem. Um Santo é o resultado de talento raro, recursos acumulados, tempo, sorte, método e vontade. Às vezes, um reino inteiro passa gerações sem produzir alguém digno desse título."
Hakim concordou: "Não é plausível aceitar perdas desse tamanho em um ataque que talvez sirva apenas para provocar Krishna."
Momoa, que até então permanecia com os braços cruzados e uma impaciência contida no rosto, soltou o ar pelo nariz.
"Eu odeio dizer isso, mas concordo." Ele disse: "E olha que eu estou louco para levar a luta até a casa daqueles desgraçados."
Yan Chihuo quase sorriu, mas o clima não permitiu que a provocação nascesse.
Momoa continuou: "Se dependesse só da vontade, eu já teria atravessado alguma fenda e enfiado minhas mãos no primeiro deus que aparecesse. Mas vontade não ganha uma guerra sozinha. O número de Santos que temos é pequeno. Pequeno demais. E cada um deles vai ser necessário quando a verdadeira batalha começar."
Ele olhou para Zao Tian.
"Mesmo com a Singularidade, a quantidade de Santos que surgiu não foi tão grande quanto esperávamos. Tivemos avanço, sim. Tivemos monstros novos, sim. Mas não criamos um exército de últimos estágios. Criamos indivíduos. E indivíduos morrem."
A frase veio simples e pesada.
Zao Tian assentiu.
"Eu concordo."
A resposta dele fez alguns olhares se estreitarem, porque, se ele concordava, ainda precisava explicar por que insistia na ideia.
"Eu concordo que não podemos sacrificar os Santos da humanidade como se eles fossem peças descartáveis." Zao Tian continuou: "Mas eu nunca pensei em sacrificar apenas Santos humanos."
Na mesma hora, a sala ficou mais tensa, porque a frase abriu uma porta que muitos ali ainda não tinham coragem de olhar diretamente.
A coalizão estava nascendo. Orcs, humanos, gigantes, talvez elfos, krovackianos e outras raças ainda precisavam aceitar a ideia de estar lado a lado sem tentar medir velhas contas a cada reunião. Falar em distribuir o sacrifício entre as raças era correto do ponto de vista militar, mas perigoso do ponto de vista político. Muito perigoso.
Zao Tian percebeu a preocupação e continuou antes que alguém distorcesse o que ele queria dizer.
"Não estou falando em usar os outros como escudo para preservar Decarius. Estou falando de uma realidade que tem que ser aceita. A criação não é feita só de humanos. E se essa guerra é da criação, então a força dela também precisa vir da criação inteira."
Ele apontou para um ponto do mapa, onde Uhr’Gal aparecia marcado como referência externa.
"Entre as outras raças existem Santos capazes de rivalizar com Grandes Deuses. Alguns talvez não tenham técnicas refinadas como as nossas. Alguns talvez não tenham a mesma variedade de métodos. Mas força não falta."
Daren escutou com atenção.
Zao Tian continuou: "Vargan’Zul é um exemplo. Ele lutou praticamente em pé de igualdade contra Hatori. E Hatori está na última prateleira das forças humanas."
A menção a Hatori fez Yan Chihuo mudar levemente de expressão. Hatori não era um nome que ele tratava de forma leviana. Se alguém conseguia se manter contra Hatori, então esse alguém não era apenas forte dentro dos padrões da própria raça. Era uma ameaça real em escala universal.
"Elyndariel também." Zao Tian prosseguiu: "Ela tem um respeito profundo entre os elfos, e isso não existe por acaso. Povos antigos não respeitam figuras centrais por beleza de discurso. Eles respeitam porque viram algo. Porque sabem que aquela pessoa carrega uma força que sustenta a própria raça."
Ele então voltou ao ponto de Uhr’Gal.
"E tem Shara’Kala. Ela é plenamente capaz de enfrentar um Grande Deus."
Momoa inclinou a cabeça de leve, concordando sem precisar dizer. Quem tinha visto Shara’Kala de perto não precisava de convencimento. A Khan dos Orcs carregava uma pressão que não vinha apenas do cultivo. Vinha de corpo, raça, instinto, história e vontade. Ela não era alguém que entraria em campo para ser coadjuvante.
"As outras raças possuem campeões também." Zao Tian disse: "E é isso que pode amenizar o sacrifício de um único lado. Não vai eliminar o custo. Prometer isso seria mentira. Mas vai distribuir o peso."
Hakim não pareceu satisfeito, mas entendeu o ponto: "Distribuir o peso das perdas também significa pedir que povos que mal confiam em nós coloquem seus maiores nomes em risco por uma estratégia que partiu daqui."
"Sim." Zao Tian respondeu: "E por isso eu estou falando com vocês antes."
Ele deixou a frase assentar e continuou: "Os deuses têm o tempo a favor deles. Mas a criação tem números."
Yang Hao franziu o cenho: "Números não derrotam Krishna."
"Não." Zao Tian concordou: "Mas nem mesmo Krishna pode estar em dois lugares ao mesmo tempo."
A sala mudou de expressão, pois essa era a primeira frase que realmente transformava aquela proposta absurda em algum tipo de estratégia.
Zao Tian continuou, agora mais firme: "O objetivo do momento não é invadir o Reino Divino com força total e vencer todos os deuses agora. Isso seria estupidez. O objetivo é impedir que eles se movam com liberdade; Diminuir os números deles; Cortar rotas seguras; Levar o medo até eles e forçar Krishna a reagir em múltiplos pontos. Fazer com que cada movimento deles custe caro antes mesmo da batalha final."
Ming Xiao, com os olhos estreitos, completou: " Vamos usar táticas de guerrilha."
"Isso mesmo." Zao Tian disse: "Mas em escala universal."
A expressão pareceu absurda, mas a lógica existia.
"Pequenos grupos. Alvos específicos. Grandes Deuses isolados. Deuses Protetores com funções estratégicas. Qualquer coisa que reduza a capacidade deles de preparar a próxima ofensiva."
Daren ficou calado por alguns segundos antes de dizer: "Eles renascem."
"Sim, mas levam anos para fazer isso." Zao Tian respondeu imediatamente: "E anos, agora, importam."
"Se eliminarmos Grandes Deuses suficientes antes que a batalha final aconteça, eles podem renascer depois. Mas não estarão lá quando precisarmos enfrentar o panteão de verdade. Cada Grande Deus morto agora é um problema a menos no momento decisivo. Cada função quebrada agora é uma vantagem depois. Cada estrutura danificada agora atrasa Krishna."
Momoa esfregou o queixo, pensativo: "Então você não está falando de vencer a guerra com esse ataque preventivo..."
"Não." Zao Tian respondeu: "Estou falando de fazer a guerra final ser uma opção possível."
Essa frase pareceu assentar melhor do que todas as anteriores.
Daren olhou para ele de forma mais concentrada. Hakim ainda parecia duro, mas já não parecia apenas contrário. Yang Hao estava sério, pesando o custo contra a lógica. Ming Xiao observava em silêncio, mas havia na postura dele a aceitação de que aquele tipo de raciocínio era, talvez, a única forma de compensar a diferença monstruosa entre as estruturas divinas e a fragilidade da coalizão.
Zao Tian continuou: "Se esperarmos uma ofensiva total, vamos reagir ao ataque deles com tudo misturado. Civis, capitais, defesas improvisadas, pânico, orgulho ferido, pedidos de ajuda atrasados. Se atacarmos primeiro, nós escolhemos alvos que reduzem capacidade de guerra do inimigo. Não precisamos vencer Krishna. Precisamos obrigá-lo a perder tempo."
"Tempo que ele também tem." Yang Hao disse.
"Mas não infinito e nem em atenção." Zao Tian respondeu: "Krishna pode ser uma muralha que não conseguimos atravessar, mas muralhas também precisam escolher onde ficar."
Momoa soltou um som baixo, quase em aprovação: "Isso é irritantemente razoável."
Yan Chihuo, que tinha ficado calado por tempo demais, apoiou o cotovelo na mesa e inclinou o corpo um pouco para frente.
"É razoável." Ele disse: "E é exatamente por isso que tem um problema enorme."
Todos olharam para ele.
Yan Chihuo não sorriu.
"Isso pode dar muito certo." Ele continuou: "Pode. A lógica é boa. Se conseguirmos atacar alvos isolados, matar Grandes Deuses antes que eles se reúnam, obrigar Krishna a correr atrás de incêndios em vários lugares, e fazer a guerra final chegar com o panteão desfalcado… ótimo. Parece bonito em um mapa."
Ele bateu de leve com os dedos na mesa.
"Mas o plano depende de convencer as outras raças a entrarem em batalha cedo."
Aquela frase atingiu o ponto fraco da proposta.
Yan Chihuo prosseguiu: "As alianças estão frágeis. Muito frágeis. Os orcs acabaram de aceitar que podem estar no mesmo lado que nós. Os gigantes ainda estão reorganizando as próprias divisões. Os krovackianos têm orgulho demais para aceitar qualquer plano que pareça um comando humano. Os elfos vão pensar em cada consequência por tempo demais. E os povos menores? Muitos ainda estão tentando fingir que isso não vai chegar até eles."
Ele olhou para Zao Tian.
"E isso é o mais perigoso. A maioria sabe que essa luta virá. No fundo, sabe. Mas ainda está na fase da negação. Estão se esforçando para acreditar que talvez não seja necessário chegar a esse ponto. Que talvez os deuses fiquem ocupados. Que talvez Decarius continue sendo o foco. Que talvez eles sejam uma exceção. Que talvez exista uma saída onde eles não precisem oferecer seus Santos, seus filhos, seus campeões e seus mundos."
Hakim fechou os olhos por um instante, pois não havia como negar.
Yan Chihuo continuou, agora com uma seriedade incomum para ele: "A proposta de um ataque preventivo vai acordar todo mundo desse sonho ilusório de uma vez. E muitos não vão gostar do que vão ver quando abrirem os olhos."
Zao Tian não respondeu.
"Alguns vão chamar isso de loucura humana." Yan Chihuo disse: "Alguns vão dizer que estamos tentando arrastar o universo para uma guerra que é nossa. Outros vão fingir neutralidade enquanto preparam suas fugas. Alguns vão desertar antes mesmo de a coalizão ter um nome. E alguns vão correr para os deuses pedindo tratados antes que sejam considerados inimigos."
A última frase doeu na sala, porque era possível.
Era até provável.
"Essa será a hora de saber quem é quem." Yan Chihuo continuou: "Quem está disposto a lutar. Quem só queria proteção. Quem odeia os deuses de verdade. Quem apenas odeia quando os deuses atacam o próprio quintal. Quem apenas fala de liberdade até descobrir o preço alto que ela cobra."
Ele soltou o ar devagar.
"E, sinceramente… eu tenho medo de fazer essa pergunta agora."
Zao Tian encarou Yan Chihuo.
Yan Chihuo sustentou o olhar dele sem ironia nenhuma.
"Porque eu temo que a resposta seja pior do que esperamos."
A sala voltou ao silêncio, mas agora o silêncio tinha outro formato. Não era mais o silêncio diante da possibilidade de atacar os deuses. Era o silêncio diante da possibilidade de descobrir que a criação não estava tão unida quanto precisava parecer.
Zao Tian entendeu o aviso. Ele já tinha pensado nisso, mas ouvir de Yan Chihuo tornava a coisa mais real. Uma coalizão pode morrer por excesso de verdade antes mesmo de morrer por falta de força. Pedir um ataque preventivo era, de fato, pedir que cada povo parasse de fingir. E talvez muitos não estivessem prontos para isso.
Ainda assim, a alternativa continuava sendo esperar.
Esperar Krishna.
Esperar Geb.
Esperar a Trindade.
Esperar o próximo golpe cair do céu.
Zao Tian apoiou as mãos na mesa com mais força, não por raiva, mas para se manter ancorado.
"Então talvez seja melhor descobrir agora." Ele disse.
Yan Chihuo não respondeu de imediato.
Zao Tian continuou: "Se alguém vai desertar quando a guerra exigir sacrifício, eu prefiro saber antes de colocar minha retaguarda nas mãos dele."
A frase endureceu o ambiente.
"Se alguém vai correr para os deuses pedindo por um tratado, eu prefiro que corra agora, antes de saber nossos planos."
Daren olhou para Zao Tian com um brilho frio de aprovação.
"Se alguém só quer proteção, mas não quer lutar…" Zao Tian prosseguiu: "Então também precisamos saber. Porque proteger quem não quer lutar pode ser necessário, mas confiar em quem não quer lutar pode ser fatal."
Ming Xiao assentiu devagar: "A proposta não será apenas militar. Será um teste de coesão."
"Sim." Zao Tian disse: "E talvez esse teste quebre metade da coalizão."
Hakim abriu os olhos novamente e questionou: "E você está disposto a correr esse risco?"
Zao Tian demorou um segundo antes de responder: "Não…"
A resposta surpreendeu alguns.
Ele continuou: "Eu não estou disposto. Eu odeio esse risco. Odeio a ideia de empurrar povos inteiros para uma decisão que talvez eles ainda não consigam tomar. Odeio a ideia de parecer com aqueles que oferecem sobrevivência em troca de submissão. Mas existe uma diferença entre obrigar alguém a lutar e mostrar que a guerra já começou."
Ele olhou para todos.
"Nós não vamos arrastar ninguém pelo pescoço. Mas também não podemos sustentar uma mentira confortável para manter uma união falsa."
Momoa soltou um ar pesado: "Porque uma união falsa quebra no primeiro golpe."
"Exatamente." Zao Tian disse.
Yang Hao ficou pensativo: "Então a pergunta não é apenas se devemos atacar preventivamente. É como apresentar isso sem transformar a proposta em uma ordem humana sobre as outras raças."
"Sim." Ming Xiao respondeu: "E talvez a forma seja tão importante quanto o plano."
Daren, que permanecia calado, finalmente falou de novo: "Se levarmos essa proposta, ela não pode parecer uma marcha para o Reino Divino. Precisa ser apresentada como uma campanha de redução de capacidade. Alvos claros. Custo estimado. Autonomia para cada raça decidir quais campeões enviar. Sem nenhuma forma de comando absoluto de Decarius."
Zao Tian concordou: "Sem comando absoluto, mas o comando continua conosco."
Hakim acrescentou: "Nós teremos que garantir que quem não participar do ataque ainda precisará se comprometer com alguma parte da defesa, logística, abrigo ou informação. Nem todos podem ir para o campo, mas todos precisam assumir algum custo."
Yan Chihuo inclinou a cabeça: "Isso reduz a debandada?"
"Não sei." Hakim respondeu: "Mas separa covardia de incapacidade e dá a todos uma forma de ajudar."
Momoa assentiu: "Isso pode impedir que alguns se escondam atrás da desculpa de que não são fortes para atacar."
Zao Tian ouviu aquilo e percebeu que, pela primeira vez, a proposta começava a ganhar uma forma real. Como um plano imperfeito, perigoso, mas discutível.
Ainda havia Krishna.
Ainda havia a falta de Santos.
Ainda havia a fragilidade da coalizão.
Ainda havia a Trindade.
Ainda havia Geb.
Mas, entre esperar a tempestade e acender pequenos incêndios controlados no caminho dela, talvez a segunda opção fosse a única que dava à criação algum direito de escolha.
Yan Chihuo olhou para todos por mais alguns segundos e então disse, com a voz baixa: "Só quero que entendam uma coisa. Quando essa proposta for feita, não tem como desfazer. A coalizão vai se olhar no espelho pela primeira vez."
Ele ergueu os olhos, e então concluiu: "E talvez ela odeie o que vai ver."
Zao Tian respirou fundo, sentindo o peso daquela frase se juntar a todos os outros pesos do dia.
"Então vamos preparar o espelho." Ele disse.
Ninguém sorriu.
Ninguém comemorou.
Porque aquilo era uma concordância muito pequena, não era uma vitória.
Era apenas o momento em que a criação começava a admitir que sobreviver exigiria mais do que resistir.
Exigiria escolher quem estava disposto a sangrar antes que o céu escolhesse por eles.
