Capítulo UHL 1251 - Cercado Pelo Fim
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A transmissão com Ye Yang ficou por mais alguns segundos depois daquela última frase, como se o próprio amuleto estivesse relutante em cortar o último resquício de normalidade que ainda existia do outro lado.
"Ainda tem muito cachorro para sair desse mato."
Em outro momento, Zao Tian talvez tivesse respondido com alguma provocação. Talvez tivesse dito que Ye Yang estava passando tempo demais entre elfos e começando a usar expressões estranhas, ou que ele deveria aproveitar as núpcias enquanto ainda podia, porque a guerra não tinha consideração por recém-casados, mas nenhuma dessas respostas saiu. A frase de Ye Yang, por mais simples que fosse, carregava um entendimento cruel da situação. O mato era o universo inteiro, e os cachorros que sairiam dele talvez fossem deuses, raças hesitantes, traidores, monstros antigos, ou problemas que ainda nem tinham nome.
"Fale com Elyndariel." Zao Tian disse, por fim: "E tome cuidado."
"Eu tenho tomado cuidado desde o dia em que pisei aqui." Ye Yang respondeu.
Zao Tian ficou em silêncio, antes de agradecer: "Obrigado."
Ye Yang respondeu: "Guarde o agradecimento para quando eu tiver boas noticias."
A luz do amuleto oscilou uma última vez, e então se apagou.
A sala voltou a ficar silenciosa.
Zao Tian permaneceu com o amuleto na mão por alguns instantes, olhando para o objeto como se ainda pudesse ouvir a voz do amigo presa nas linhas metálicas.
Havia algo cruel em cada contato daquele tipo. Era necessário chamar pessoas, distribuir tarefas, pedir favores, movimentar alianças, cutucar feridas, abrir negociações e transformar vínculos pessoais em rotas de guerra. Contudo, cada vez que fazia isso, Zao Tian sentia que arrancava alguém de uma vida que essa pessoa tinha o direito de viver. Ye Yang tinha direito a alguns dias de paz. Elyndariel tinha direito a um casamento que não fosse imediatamente convertido em uma ferramenta diplomática. Sua filha, Moira, tinha direito a pais presentes. Ming Xue tinha direito a um marido que não estivesse sempre partindo para impedir o fim de alguma coisa.
O grande problema era que direitos não impediam desastres.
Ming Xiao observou Zao Tian sem interromper esse pensamento. Ele tinha a capacidade rara de permanecer quieto sem parecer ausente. Quando finalmente falou, sua voz veio baixa, na medida certa: "O que pretende fazer agora?"
Zao Tian fechou a mão em volta do amuleto e demorou alguns segundos para responder. A pergunta era simples, mas existiam respostas demais competindo dentro dele. Ele precisava falar com Hatori. Precisava organizar a abordagem aos orcs. Precisava discutir critérios para Armas do Espírito antes que os elfos pedissem. Precisava pensar nos gigantes, nos krovackianos, nos povos menores, nos alvos, em Krishna, em Geb, na Trindade. Precisava também descansar, mas descansar parecia uma palavra indecente quando o universo inteiro estava se inclinando na direção de uma guerra.
Ainda assim, a resposta que saiu não foi nenhuma dessas…
"Quero ficar algumas horas com Moira." Ele disse.
Ming Xiao não demonstrou surpresa. Talvez porque, apesar de tudo, aquela fosse a resposta mais humana que Zao Tian poderia dar. Talvez porque ele próprio, com toda a sua frieza aparente, entendesse que existem momentos em que segurar uma criança no colo é menos uma fuga do que sobrevivência.
Zao Tian continuou, olhando para a mesa vazia: "Estou com um pressentimento de que ficarei um bom tempo longe dela."
Aquela frase ficou entre os dois, pesada de uma forma diferente das decisões militares. Guerras, mapas e estratégias podiam ser discutidos com dureza, mas um bebê não cabia em uma estratégia sem que algo dentro de uma pessoa começasse a apodrecer. Moira era pequena demais para entender por que tantos adultos ao redor dela tinham olhos cansados. Pequena demais para saber que carregava vínculos com pessoas que talvez fossem chamadas a atravessar campos de batalha antes mesmo que ela aprendesse a chamar seus nomes direito.
Por isso, Ming Xiao assentiu devagar: "Você deve fazer isso."
Zao Tian olhou para ele.
Ming Xiao continuou: "A vida dela provavelmente será difícil. Ainda é um bebê, mas tem como pais adotivos você e a Xue. Duas das pessoas mais ocupadas do universo."
A frase não foi dita como crítica. Foi dita como uma constatação triste. Zao Tian sentiu o peso dela mais do que gostaria. Porque era verdade. Ele e Ming Xue amavam Moira, mas amor não multiplicava tempo. Amor não impedia convocações. Amor não explicava a uma criança por que seus pais precisavam sair de novo, lutar de novo, desaparecer de novo, sangrar de novo.
"Eu sinto muito por ela." Zao Tian disse.
Ming Xiao permaneceu quieto.
Zao Tian então apoiou uma das mãos na borda da mesa: "Ela não pediu nada disso. Não pediu para nascer neste momento. Não pediu para ser colocada no meio de uma família que vive correndo atrás de ameaças cósmicas. Não pediu para ter pessoas ao redor que, por mais que tentem, talvez nunca consigam oferecer uma rotina normal."
Ele soltou o ar devagar, e a voz dele ficou um pouco mais baixa: "Eu espero que um dia eu consiga resolver todo esse inferno. Que ela possa crescer em um mundo onde o nome de um deus não seja uma arma apontada para a cabeça dela. Onde uma criança não precise aprender cedo demais que o céu pode cair, que reis podem morrer, que planetas podem queimar, que pessoas boas podem sair de casa e não voltar."
Zao Tian desviou o olhar por um instante, e prosseguiu: "Eu gostaria que fosse rápido. Gostaria de poder acabar com isso antes que ela cresça o bastante para perceber o tamanho do medo em volta dela. Gostaria de acompanhar cada passo, cada palavra, cada descoberta, por mais pequena que fosse. Mas eu sei que isso está fora do meu controle."
Ao escutar aquilo, Ming Xiao não tentou consolar com mentiras. Essa era uma das razões pelas quais Zao Tian confiava nele. Ming Xiao não era do tipo que dizia que tudo ficaria bem apenas porque o silêncio estava pesado demais.
"Nem tudo depende só de nós." Ele disse.
Zao Tian acenou lentamente: "Eu sei."
"E isso não tira a sua responsabilidade." Ming Xiao acrescentou: "Mas impede que você transforme cada ausência em uma culpa absoluta."
Zao Tian não respondeu de imediato. A frase alcançou um lugar incômodo, e ele a deixou ali, sem discutir. Talvez porque soubesse que Ming Xiao estava certo. Talvez porque, naquele momento, discutir seria apenas outra forma de fugir.
"Tenho que ir." Zao Tian disse, depois de alguns segundos: "Preciso aproveitar os momentos que ainda tenho."
Ming Xiao assentiu.
Zao Tian guardou o amuleto, mas, antes de se afastar da mesa, parou. A urgência pessoal puxava de um lado, mas a guerra ainda estava ali, esperando qualquer brecha para reclamar prioridade.
"Antes disso..." Ele começou.
Ming Xiao ergueu o olhar.
Zao Tian completou: "Hatori deveria falar com os orcs."
A mudança de assunto não pareceu surpreender Ming Xiao. Ele apenas olhou novamente para a projeção enfraquecida de Uhr’Gal no centro da mesa.
"Por causa da negociação anterior." Ele comentou.
"Sim." Zao Tian respondeu: "Desde o início, foi ele quem abriu caminho com eles. Foi Hatori quem enfrentou a marcha antes que ela se tornasse um desastre sem volta. Foi ele quem falou com líderes orcs quando todo mundo ainda via apenas invasores. Eles podem não confiar completamente nele, mas reconhecem sua palavra. E isso já é mais do que a maioria de nós tem."
Ming Xiao apoiou dois dedos sobre a superfície da mesa, e as linhas de Uhr’Gal voltaram a brilhar: "Shara’Kala deveria ir com ele."
"Também penso isso." Zao Tian disse: "Ela é necessária. Hatori tem histórico e respeito conquistado pela postura, mas Shara’Kala tem legitimidade interna. Ela é uma voz orc. E, depois do que aconteceu com o Curupira, depois do acordo para que ele permaneça em órbita, ela entende melhor do que qualquer um o equilíbrio entre proteção e soberania."
Ming Xiao completou: "Então… Seria bom se Zargoth também nos apoiasse."
Zao Tian assentiu: "Eles precisam buscar o apoio de Zargoth. Não apenas autorização. Apoio. Se Zargoth aparecer hesitante, os clãs vão se dividir. Se ele apoiar com firmeza, mesmo aqueles que discordarem terão que pensar duas vezes antes de chamar a proposta de mais uma loucura humana."
"Acha mesmo que os orcs aceitarão uma ação preventiva?" Ming Xiao questionou.
"Não sei." Zao Tian respondeu com sinceridade: "Mas, entre todos, talvez sejam os que entendam melhor a linguagem do ataque antes de ser atacado. O problema é fazê-los acreditar que não estão sendo usados como ponta de lança de Decarius."
Ming Xiao permaneceu pensativo.
"Até que ponto Hatori pode negociar?" Ele perguntou.
Zao Tian olhou para o mapa de Uhr’Gal por alguns instantes. A pergunta era mais importante do que parecia. Dar limites rígidos a Hatori poderia impedir uma concessão necessária no momento certo. Dar liberdade demais poderia criar compromissos difíceis de honrar. Contudo, Hatori não era alguém que se deixava levar por emoção diplomática. Ele podia ser duro, provocativo e perigoso, mas entendia palavra, honra e consequência.
"Eu confio no Hatori." Zao Tian disse.
Ming Xiao observou o rosto dele.
Zao Tian continuou: "O que ele acertar será cumprido."
A frase era grande. Ming Xiao entendeu isso imediatamente.
"Mesmo que ele prometa algo caro?" Ele perguntou, para confirmar.
"Se ele prometer, é porque viu necessidade." Zao Tian respondeu: "E se começarmos essa coalizão mandando representantes que não têm autoridade real para negociar, vamos perder antes de começar. Os orcs precisam sentir que estão falando com alguém que pode assumir compromissos, não com um mensageiro levando recados de Decarius."
"Isso abre riscos." Ming Xiao alertou.
"Sim." Zao Tian concordou, antes de contrapor: "Mas também abre um campo de confiança."
Ao escutar aquilo, Ming Xiao acenou devagar, aceitando a lógica: "Vou falar com Hatori."
"Peça para ele levar Shara’Kala. E não pressionem Zargoth como se ele fosse um obstáculo. Ele precisa ser tratado como um pilar."
"Entendido." Ming Xiao confirmou.
Por alguns segundos, parecia que a conversa tinha terminado. Zao Tian chegou a dar um passo para se afastar da mesa, mas Ming Xiao falou de novo: "E os krovackianos?"
Zao Tian parou.
Aquela pergunta era inevitável.
Ming Xiao continuou: "Quando será feito contato com eles?"
Zao Tian ficou calado por alguns instantes. Não porque não quisesse responder, mas porque não tinha uma resposta boa. Os krovackianos eram uma das peças mais complicadas da coalizão nascente. Diferente dos elfos, não podiam ser seduzidos apenas por poder refinado e vantagem política. Diferente dos orcs, não havia uma ponte de respeito construída por diálogo suficiente. O contato humano com eles tinha sido marcado por sangue, humilhação e um tratado que mais parecia a interrupção de massacre do que o início de uma amizade.
"No momento..." Zao Tian disse, devagar: "Não tenho ninguém em mente para lidar com eles."
Ming Xiao não pareceu surpreso, mas esperou.
Zao Tian continuou: "Pense bem. Os contatos reais que os krovackianos tiveram conosco foram quais? A luta em que Daren matou milhares deles… Hatori enfrentando Vargan’Zul… E aquela reunião em Uhr’Gal onde a aliança foi selada com insultos, ameaças e reféns."
"Não foi uma base amistosa." Ming Xiao comentou.
"Foi quase o oposto disso." Zao Tian respondeu: "Eles nos veem como uma ameaça imperial, como humanos tentando reorganizar o universo ao redor de Decarius. E, para piorar, parte deles deve acreditar que só recuaram porque Vargan’Zul foi forçado, humilhado ou pressionado. Se mandarmos a pessoa errada, podemos transformar uma conversa difícil em uma ruptura."
Ming Xiao ficou pensativo.
"Há uma possibilidade." Ele disse.
Zao Tian olhou para ele.
"Rhazek’Zul…" Ming Xiao citou.
A expressão de Zao Tian mudou antes mesmo que Ming Xiao completasse.
"O filho de Vargan’Zul está em Decarius, no Vale da Esperança." Ming Xiao continuou, cauteloso: "Ele veio como parte da troca de reféns e no pouco tempo em solo humano, tem gostado do que vê. Os relatórios indicam que ele se mostrou curioso, menos hostil do que o esperado, e que a forma como tem sido tratado causou impacto nele. Poderíamos usar isso."
"Não." A resposta de Zao Tian veio imediata, sem espaço para discussão.
Ming Xiao ficou em silêncio por um segundo, antes de argumentar: "Eu não falei em ameaçá-lo."
"Eu sei o que você falou." Zao Tian respondeu: "E continuo dizendo não."
A firmeza da voz dele não era raiva explosiva. Era princípio. Um tipo de limite que não precisava ser discutido muitas vezes porque, se fosse cedido ali, algo se perderia.
"Rhazek’Zul já está fazendo a parte dele." Zao Tian disse: "Ele está longe da família, em território hostil, sustentando uma aliança que nem foi construída sobre confiança. Ele é um refém. Mesmo que esteja sendo bem tratado, mesmo que esteja curioso, mesmo que esteja gostando de algumas coisas que vê, continua sendo um refém."
Ming Xiao não desviou o olhar.
Zao Tian prosseguiu: "Eu não vou transformar esse garoto em um joguete político além do que ele já é."
"Ele pode ser uma ponte." Ming Xiao argumentou.
"Ele é apenas uma criança que foi arrancada do próprio povo para garantir que adultos não quebrem um acordo." Zao Tian corrigiu: "E isso já é pesado o bastante."
Naquele momento, a sala ficou mais quieta.
Zao Tian respirou fundo, tentando conter a dureza que vinha junto com aquela imagem, e explicou: "Zao Rei está com os orcs agora... Se eles pegassem meu irmão e tentassem usá-lo para me convencer de alguma coisa, eu entenderia como uma ameaça mesmo que dissessem que era um diálogo. E eu odiaria. Então não vou fazer com Rhazek’Zul algo que eu não aceitaria que fizessem com Zao Rei."
Ming Xiao absorveu aquilo sem rebater de imediato. A comparação era incontornável. Reféns políticos sempre eram chamados de garantias quando convinha aos adultos, mas, no fim, eram pessoas colocadas em lugares perigosos para impedir que outros cometessem traições. Usar ainda mais uma dessas pessoas, principalmente alguém jovem, poderia até ser eficiente, mas a eficiência não era o único critério de uma guerra que pretendia ser diferente da dominação divina.
"Mesmo que fosse uma opção moralmente aceitável..." Zao Tian continuou: "Também seria inútil."
Ming Xiao franziu levemente o cenho.
"Nenhum krovackiano acreditaria nas palavras dele." Zao Tian explicou: “Justamente porque ele está aqui. Em território estrangeiro. Sob nossa custódia. Qualquer coisa que Rhazek’Zul disser será vista como algo que o forçamos a dizer, ou como uma fraqueza gerada pelo conforto humano, ou como manipulação."
Ele então apontou para a região onde os registros krovackianos tinham sido marcados de forma incompleta no mapa: "Ele não tem credibilidade nenhuma com eles agora. Talvez tenha no futuro. Talvez, quando voltar e puder falar como alguém que viveu entre humanos sem correntes no pescoço, suas palavras importem. Mas agora? Agora ele é um refém. E qualquer palavra de um refém sempre parecerá ter a mão do carcereiro segurando a garganta."
Ming Xiao ficou calado e Zao Tian baixou o olhar por um instante.
"Não vamos usar Rhazek’Zul." Zao Tian finalizou.
"Entendido." Ming Xiao disse.
Aquela resposta veio sem resistência. Ming Xiao podia ter levantado a possibilidade por pragmatismo, mas não parecia apegado a ela. Ele apenas estava fazendo o que precisava ser feito: colocando peças na mesa, mesmo as desagradáveis, para que Zao Tian as aceitasse ou rejeitasse com consciência.
"E então?" Ming Xiao perguntou: "Quem enviamos?"
Zao Tian demorou, pois essa era a pior parte.
Com os elfos, havia Ye Yang e Elyndariel. Com os orcs, Hatori, Shara’Kala e Zargoth. Com os humanos, ele próprio, Daren, Momoa, Hakim, Yang Hao e outros líderes já estavam em movimento. Contudo, os krovackianos permaneciam como uma parede cheia de espinhos. Enviar Daren seria uma provocação imperdoável. Enviar Hatori poderia reabrir a humilhação da luta com Vargan’Zul. Enviar Zao Tian talvez fosse interpretado como uma pressão direta demais. Enviar um diplomata fraco seria um insulto. Enviar alguém forte demais seria uma ameaça. Enviar alguém sem história seria uma perda de tempo.
"Não sei." Zao Tian admitiu.
Ming Xiao esperou.
Zao Tian olhou para o mapa como se a resposta pudesse surgir entre as linhas, e então falou: "Esse assunto ficará para outra hora."
"Podemos não ter muito tempo." Ming Xiao alertou.
"Eu sei." Zao Tian respondeu.
"Os krovackianos têm campeões que podem mudar o peso de qualquer campanha preventiva." Ming Xiao acrescentou.
"Eu sei disso também." Zao Tian respondeu.
Ming Xiao sustentou o olhar dele e teve que avisar: "Então você sabe adiar é arriscado."
Zao Tian concordou com um aceno lento: "É. Mas escolher errado pode ser pior."
Depois de dizer aquilo, ele passou a mão pela projeção krovackiana, e a luz se espalhou em partículas antes de se reorganizar: "Os krovackianos não precisam apenas ser convencidos. Precisam não se sentir comandados. Não se sentir comprados. Não se sentir acuados. E, ao mesmo tempo, precisam receber uma proposta forte o bastante para não parecer desprezo. Eu não tenho esse nome agora."
Ming Xiao não discordou, afinal, ele também não tinha essa resposta.
Zao Tian completou, com uma sinceridade cansada: "E, honestamente, neste momento, não faço ideia de quem enviar para conversar com eles."
A confissão não enfraqueceu a sala. Pelo contrário. Tornou o problema mais claro. Algumas peças podiam ser movidas naquela noite. Outras ainda precisavam ganhar forma. Por parte dos humanos, o plano preventivo tinha sido aceito, mas aceitação não era execução. Entre uma decisão e uma campanha universal havia uma distância cheia de povos orgulhosos, feridas recentes e interesses que não se ajoelhariam diante da urgência humana.
Zao Tian então desfez o restante dos mapas com um movimento lento da mão.
A luz se apagou quase por completo.
"Fale com Hatori." Ele disse. "Prepare isso para os orcs. Eu vou ver Moira."
Ming Xiao assentiu: "Vá."
Zao Tian caminhou até a porta, mas parou novamente antes de sair. Por algum motivo, ele olhou uma última vez para a mesa vazia. Durante horas, aquela mesa tinha sustentado guerras futuras, concessões, riscos e o possível início de uma campanha contra os deuses. Agora, sem projeções, ela parecia apenas madeira e pedra. Uma coisa comum demais para ter carregado tanto peso.
"Às vezes..." Zao Tian murmurou, sem olhar para Ming Xiao: "Eu acho que estamos decidindo quem vai viver e quem vai morrer com uma facilidade assustadora."
Ming Xiao respondeu sem hesitar: "A facilidade assustadora seria não se incomodar com isso."
Zao Tian ficou parado por mais um segundo… Depois acenou e saiu.
Do lado de fora, os corredores pareciam menos frios do que a sala. Havia guardas em silêncio, cultivadores se deslocando, mensageiros esperando ordens que ainda não sabiam que receberiam. O mundo continuava funcionando, mesmo enquanto decisões grandes demais eram tomadas por trás de portas fechadas.
Isso sempre impressionava Zao Tian.
A normalidade tinha uma teimosia quase ofensiva. Pessoas ainda comiam, andavam, conversavam, cuidavam de feridos, limpavam armas, trocavam turnos e reclamavam de pequenos problemas enquanto o céu inteiro se preparava para cair.
Talvez fosse por isso que ele queria ver Moira.
Não para fugir da realidade, mas para lembrar por que ele precisava lutar.
Ele então caminhou sem pressa, embora cada instinto gritasse que ainda havia trabalho demais.
Pela primeira vez em muitos dias, Zao Tian obrigou o próprio corpo a não transformar a urgência em uma corrida. Algumas horas não salvariam a guerra, mas talvez salvassem algo nele. E, se ele perdesse aquilo completamente, se ele se tornasse apenas estratégia, luz, violência e decisão, então talvez a guerra já tivesse levado uma parte dele antes mesmo da primeira campanha começar.
Ao se aproximar dos aposentos onde Ming Xue estava com Moira, ele diminuiu ainda mais o passo.
A porta estava entreaberta.
Do lado de dentro, havia uma luz baixa e um som pequeno, quase imperceptível, de respiração infantil.
Zao Tian ficou parado por um instante antes de entrar, como se precisasse deixar do lado de fora Krishna, Geb, a Trindade, os elfos, os orcs, os krovackianos, os deuses e todas as palavras que cortavam como lâminas.
Ele sabia que não conseguiria deixá-los de verdade, mas tentou. Porque, por algumas horas, ele queria ser apenas alguém voltando para casa, mesmo que a casa inteira estivesse cercada pelo fim do mundo.
