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Capítulo UHL 1252 - O Nome Certo

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Tenham uma boa leitura!]


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Depois daquela reunião, por algumas horas, o mundo realmente ficou menor para Zao Tian.


Não porque as ameaças tivessem desaparecido, nem porque Zao Tian tivesse conseguido esquecer os problemas. Nada disso sumiu. Nada disso se afastou de verdade. Todas aquelas coisas continuavam ali, como lâminas penduradas sobre sua cabeça por fios finos demais. Ainda assim, quando ele atravessou a porta dos aposentos e viu Ming Xue sentada próxima à janela, com Moira acomodada em seus braços, a guerra pareceu perder, por um breve intervalo, o direito de ocupar todos os espaços.


A luz dentro do quarto era baixa e quente. Não vinha de tochas agressivas nem de cristais espirituais potentes, mas de pequenas matrizes suaves colocadas perto das paredes, desenhadas para não ferir os olhos de uma criança. Moira estava desperta, mexendo os dedos pequenos no ar como se tentasse agarrar algo invisível. Seus olhos ainda não tinham a firmeza de quem entende o mundo, mas havia neles aquela curiosidade bruta dos bebês, uma atenção sem medo, como se cada sombra no teto, cada dobra da roupa de Ming Xue e cada movimento no rosto de Zao Tian fossem acontecimentos dignos de estudo profundo.


Ming Xue olhou para ele quando entrou. Ela não perguntou como tinha sido a reunião.


Isso, para Zao Tian, foi uma forma de misericórdia.


"Ela estava esperando você." Ming Xue disse, com um tom baixo.


Zao Tian olhou para Moira: "Ela não sabe quem eu sou."


"Não com palavras." Ming Xue respondeu: "Mas sabe que você é especial."


Zao Tian se aproximou devagar, como se estivesse entrando em um templo onde qualquer movimento brusco seria uma blasfêmia. Ele já tinha enfrentado deuses, atravessado campos de batalha, sentido o universo tremer ao redor do próprio corpo e lido horrores escondidos dentro de mentes quebradas. Mesmo assim, pegar Moira no colo ainda parecia uma das coisas mais perigosas que fazia. Ela era pequena demais. Frágil demais. Inteira demais.


Ming Xue entregou a criança a ele com naturalidade, mas Zao Tian recebeu Moira como se carregasse algo feito de luz e respiração. Moira mexeu os braços, abriu a boca em um som sem forma e agarrou um pedaço da roupa dele com uma força surpreendente para alguém tão pequena.


Zao Tian ficou olhando para aquela mão minúscula presa ao tecido.


"Você realmente não tem ideia do problema em que nasceu." Ele murmurou.


Ming Xue inclinou a cabeça de leve. "Talvez isso seja bom."


Zao Tian respondeu: "Por enquanto."


Ming Xue acrescentou: "O por enquanto é tudo que temos."


Zao Tian não respondeu, mas aceitou a frase. Sentou-se perto dela e, por algum tempo, ficou apenas ali. Moira puxava sua roupa, soltava sons pequenos, virava o rosto em direção à voz de Ming Xue e, vez ou outra, franzia a testa como se estivesse contrariada por algum mistério pessoal impossível de explicar. Ming Xue falava com ela de forma serena, quase sussurrada, e Zao Tian respondia às pequenas reações da criança como se aquelas fossem perguntas de grande importância.


Eles falaram sobre coisas simples. Sobre como Moira tinha dormido mais cedo. Sobre uma expressão estranha que ela fazia quando parecia prestes a chorar, mas desistia no meio. Sobre o modo como ela ficava irritada quando alguém demorava a pegá-la no colo. Sobre a possibilidade de ela ter herdado alguma teimosia de todos ao redor, mesmo sem sangue direto. Ming Xue disse que Moira parecia gostar da voz de Zao Tian porque ficava mais quieta quando ele falava. Zao Tian respondeu que talvez ela apenas estivesse tentando entender por que ele parecia tão sério o tempo todo. Ming Xue disse que isso era impossível até para adultos.


Zao Tian quase sorriu.


Quase.


Mas aquele quase já foi muito.


As horas passaram com uma leveza que parecia roubada. Moira dormiu, acordou, resmungou, agarrou um dedo de Zao Tian com as duas mãos, soltou, agarrou de novo, como se estivesse testando a permanência dele. Ming Xue encostou o ombro no dele em determinado momento, e nenhum dos dois precisou transformar aquilo em uma conversa. Havia cansaço entre eles. Havia amor também. E havia aquela consciência triste de que, quando a guerra chama alguém muitas vezes, até os momentos felizes começam a ter gosto de despedida.


Ainda assim, Zao Tian permaneceu.


Por algumas horas, ele foi apenas um pai.


Ou tentou ser.


E tentar, naquele caso, já era uma forma de resistência.


Mais tarde, quando Moira dormia com o rosto tranquilo contra o peito de Ming Xue, uma presença conhecida se aproximou dos aposentos. Zao Tian percebeu antes que a batida viesse. Não era um inimigo. Não era um mensageiro. Não era alguém trazendo uma urgência formal. Era uma presença familiar, forte, solta, carregada daquele tipo de naturalidade que só pessoas muito próximas conseguem ter mesmo em lugares protegidos.


Gu Ren bateu uma vez na porta entreaberta e colocou a cabeça para dentro.


"Estou interrompendo?"


Ming Xue olhou para ele: "Depende."


Gu Ren ergueu as mãos e brincou: "Eu vim em paz."


Zao Tian olhou para Moira adormecida e falou: "Então entre."


Gu Ren entrou. Ele caminhou até uma cadeira próxima, sentou-se com um cuidado exagerado e olhou para Moira como se aquela pequena criatura tivesse autoridade suficiente para expulsá-lo dali caso ficasse insatisfeita.


"Ela cresceu." Gu Ren comentou.


"Você a viu há poucos dias." Ming Xue disse.


Gu Ren respondeu: "Eu sei. Bebês fazem isso. Crescem sem pedir autorização. É uma falta de disciplina."


Zao Tian soltou um som que poderia ser confundido com riso, se alguém fosse generoso: "Você veio até aqui para criticar um bebê?"


"Vim visitar minha sobrinha." Gu Ren respondeu: "A crítica é parte do afeto."


"Isso parece algo que Gold diria." Zao Tian comentou.


Gu Ren fez uma careta: "Então retiro a crítica."


Ming Xue abaixou os olhos para Moira, e havia um brilho leve em seu rosto: "Ela está dormindo. Mas pode ficar."


"Ótimo." Gu Ren se acomodou melhor: "Prometo não discutir o destino do universo nos primeiros minutos."


"Que generoso." Zao Tian comentou.


E, por algum tempo, Gu Ren cumpriu.


Eles conversaram sobre coisas que não tinham nada a ver com batalhas. Gu Ren contou que um dos jovens cultivadores do Vale da Esperança tinha tentado impressionar uma instrutora levantando uma pedra grande demais e acabou preso debaixo dela até alguém resgatá-lo. Ming Xue perguntou se ele aprendeu alguma coisa, e Gu Ren respondeu que provavelmente sim, embora não a lição correta. Zao Tian comentou que pelo menos o garoto tinha escolhido pedra e não fogo. Gu Ren disse que aquele era o padrão mínimo de inteligência que esperava de alguém que ainda queria manter os braços.


Depois eles falaram sobre comida.


Gu Ren reclamou que a culinária de Decarius estava ficando estranha demais depois da chegada de tantos povos diferentes. Disse que alguém tentou adaptar um prato orc para humanos e que o resultado parecia uma punição disciplinar. Ming Xue discordou, dizendo que alguns temperos de Uhr’Gal eram interessantes quando usados com cuidado. Gu Ren respondeu que “com cuidado” era justamente a parte que os orcs pareciam considerar fraqueza. Zao Tian observou que Hakim e Gard provavelmente criariam uma versão mais equilibrada se tivessem tempo. Gu Ren disse que Hakim conseguiria organizar uma revolução social, construir máquinas espirituais e ainda assim temperar melhor uma sopa do que metade dos cozinheiros de guerra.


Toda a conversa foi simples, inútil e preciosa.


Zao Tian percebeu isso enquanto ouvia Gu Ren reclamar de assuntos completamente banais. Havia algo quase curativo em escutar um problema que não envolvia deuses, tratados, raças ou genocídio. Um prato ruim. Um jovem idiota. Um corredor barulhento. Uma criança que acordava quando todos queriam dormir e dormia quando todos queriam vê-la sorrir. A vida comum era cheia de coisas irritantes, e, naquele momento, Zao Tian teria dado tudo para que todas as suas preocupações coubessem dentro desse tipo de irritação.


Mas a guerra, como sempre, encontrou uma rachadura.


Enquanto Gu Ren falava sobre um guarda que tinha conseguido se perder dentro de uma ala reta do palácio, Zao Tian ficou sério. Não foi uma mudança brusca, apenas uma sombra passando pelos olhos. O rosto dele não endureceu completamente, mas algo no corpo denunciou que a mente tinha sido puxada de volta para a sala de reunião, para os krovackianos, para a pergunta sem resposta. Era como se aquilo que ele havia esquecido por algumas horas tivesse retornado de uma vez, cobrando juros.


Gu Ren percebeu, parou de falar no meio da história e observou Zao Tian por um instante.


"É foda, né?" Gu Ren comentou.


Ming Xue levantou os olhos.


Zao Tian olhou para Gu Ren e respondeu com uma honestidade cansada: "É foda."


Gu Ren assentiu como se aquela fosse uma conclusão filosófica o suficiente para explicar a situação universal. Talvez fosse. Algumas coisas eram complexas demais para caber em discursos, mas simples o bastante para caber em duas palavras.


"Qual é o obstáculo da vez?" Gu Ren perguntou.


Zao Tian olhou para Moira antes de responder. A menina continuava dormindo, alheia a tudo, com uma das mãos fechada junto ao peito.


"Os krovackianos." Ele respondeu.


Gu Ren inclinou a cabeça e comentou: "Imaginei que eles dariam trabalho."


Zao Tian respondeu: "Eles nem começaram a dar trabalho. Esse é o problema."


Zao Tian explicou a situação sem transformar cada ponto em uma nova reunião: os elfos seriam abordados por Ye Yang e Elyndariel; os orcs por Hatori, Shara’Kala e, se possível, Zargoth; os humanos estavam alinhados o suficiente para iniciar o processo. Os krovackianos, porém, continuavam sem uma ponte.


Gu Ren escutou tudo com uma atenção incomum, coçou o queixo uma vez, olhou para Moira, depois para Ming Xue, e por fim voltou a encarar Zao Tian.


"Situação complicada." Ele disse.


"Sim." Zao Tian respondeu.


"Quase feita para dar errado." Gu Ren comentou.


"Obrigado pela ajuda." Zao Tian retrucou sarcasticamente.


"Me envie." Gu Ren então pediu.


Ao escutar aquilo, Zao Tian ficou sem resposta. Por alguns segundos, ele apenas encarou Gu Ren como se tivesse ouvido errado. A proposta tinha sido dita com tanta simplicidade que parecia brincadeira, mas a expressão do irmão de juramento não carregava humor suficiente para permitir essa saída.


"Você?" Zao Tian perguntou.


"Sim." Gu Ren confirmou.


"Para negociar com os krovackianos?" Zao Tian pediu mais uma confirmação.


"Essa costuma ser a função da frase ‘me envie’ dentro do contexto da conversa." Gu Ren provocou.


Zao Tian estreitou os olhos e confessou: "Eu sinceramente nem tinha cogitado seu nome."


"Eu percebi. Foi um erro feio." Gu Ren respondeu, quase ofendido.


"Não é uma missão simples." Zao Tian alertou.


"Nenhuma das últimas foi." Gu Ren diminuiu.


Zao Tian ainda parecia pego de surpresa enquato falava: "Gu Ren, os krovackianos não gostam de humanos."


Gu Ren acrescentou: "Metade do universo não gosta de humanos. A outra metade gosta menos ainda depois que conhece você."


Ming Xue riu ao escutar aquilo.


Zao Tian ignorou e respondeu: "Estou falando sério."


"Eu também." Gu Ren se inclinou um pouco para frente: "Eu não tenho nenhuma pendência pessoal com os krovackianos além de ser humano. Não matei milhares deles. Não lutei contra Vargan’Zul. Não participei daquela reunião como alguém que parecia colocar uma faca sobre a mesa. Para eles, eu sou humano, sim, e isso já é ruim. Mas não sou o humano errado."


Aquele argumento era simples demais para ser ignorado.


"Mesmo assim, estou surpreso que tenha se voluntariado." Zao Tian disse: "Eu realmente nem considerei essa possibilidade."


Gu Ren olhou para ele como se aquilo fosse uma ofensa pessoal e questionou: "Você está de sacanagem?"


Zao Tian piscou uma vez.


"Quem mais você ia enviar? Cruz?" Gu Ren abriu as mãos: "Cruz é um louco. Eu gosto dele, respeito, confiaria minha vida a ele em várias situações, mas mandar Cruz negociar com krovackianos seria como jogar uma tocha dentro de um depósito de óleo e depois se surpreender com o incêndio."


Zao Tian abriu a boca, mas Gu Ren ergueu um dedo.


"Momoa é uma panela de pressão com pernas e mais músculos do que deveria. Ele tentaria ser diplomático por cinco minutos, alguém olharia torto, ele sorriria daquele jeito dele, e, quando percebêssemos, metade da reunião estaria tentando provar quem tem o crânio mais duro. Yan Chihuo é inteligente e boa praça demais quando quer; os krovackianos iam achar que ele está escondendo veneno atrás de simpatia, ou ele provocaria alguém só para ver a reação. Você sabe que ele faria isso."


Zao Tian fechou a boca.


Gu Ren apontou para si mesmo: "Eu sou a pessoa mais equilibrada entre os nomes possíveis."


A frase era absurda e, ao mesmo tempo, difícil de negar.


"Isso é preocupante." Zao Tian comentou.


"Concordo. Mas continua sendo verdade." Gu Ren avisou.


Zao Tian olhou para Ming Xue como se buscasse nela algum contraponto. O problema foi que Ming Xue, em vez de desmentir Gu Ren, apenas ajustou Moira nos braços e falou com calma: "Ele tem razão."


Gu Ren sorriu: "Obrigado."


"Não se anime demais." Ming Xue respondeu e o sorriso dele diminuiu.


Ming Xue prosseguiu: "A família Gu é uma família de comerciantes. Negociar não é uma habilidade complementar para eles. É uma tradição. Gu Ren foi treinado para ler interesse, orgulho, vantagem, insulto e oportunidade desde muito antes de entrar em campos de batalha."


Zao Tian olhou para Gu Ren de novo.


"Além disso, ele tem a autoridade e a confiança que você quer em alguém enviado para esse tipo de conversa." Ming Xue continuou: "Se Gu Ren assumir um compromisso em seu nome, todos saberão que você levará aquilo a sério. Ele não é um mensageiro descartável. É seu irmão de juramento."


Gu Ren inclinou a cabeça em concordância, mas deixou Ming Xue terminar.


"E ainda tem Elijah. O Soberano do Ar vive dentro dele, assim como Gold vive dentro de você. Isso dá a Gu Ren um suporte invisível que nenhum outro nome teria. Não apenas em força, mas em percepção, fuga, leitura de comportamentos e expressões. Se a conversa azedar, ele tem mais chances de sobreviver do que a maioria dos outros. E, se a conversa ficar sutil demais, talvez Elijah perceba coisas que nós não perceberíamos."


Gu Ren tocou o próprio peito de leve e confirmou: "Ele está fingindo que não gostou de ser chamado de suporte."


Zao Tian olhou para ele: "Elijah disse isso?"


Gu Ren respondeu: "Não. Mas senti uma ofensa dentro de mim, então presumi." 


Ming Xue balançou a cabeça de leve.


Gu Ren voltou a ficar sério e completou: "E tem mais uma coisa. Eu preciso me desculpar pela briga no casamento de Ye Yang."


Zao Tian ergueu uma sobrancelha: "Você acha que isso ajuda?"


Gu Ren explicou: "Acredite ou não, sim. Os krovackianos odeiam os elfos. Ou, no mínimo, desprezam o jeito élfico de existir com uma dedicação admirável. E eu humilhei um elfo importante naquele dia."


Ming Xue observou: "Isso não torna você um aliado deles."


"Não." Gu Ren concordou, antes de contrapor: "Mas cria uma fresta de simpatia que nenhum outro humano tem. Para nós, foi uma briga inconveniente em um casamento. Para eles, pode ser lido como um humano que não abaixou a cabeça para a arrogância élfica em um ambiente onde todos esperavam refinamento e etiqueta. Os Krovackianos talvez não gostem de mim, mas podem achar um ponto em comum entre nós. E, às vezes, esse ponto em comum é melhor do que querer arrancar minha cabeça no primeiro minuto."


Zao Tian ficou olhando para Gu Ren em silêncio.


A ideia, quanto mais ele pensava, menos absurda ficava. Na verdade, começava a fazer sentido demais. Gu Ren não carregava a mancha direta do massacre contra os krovackianos. Era forte o bastante para não ser tratado como lixo, próximo o bastante de Zao Tian para ter autoridade, treinado por uma família de comerciantes, amparado por Elijah e ainda tinha, por acidente ou destino, um incidente recente que poderia diminuir a antipatia inicial dos krovackianos por ele. Não era perfeito. Nada era. Mas era uma ponte possível onde antes só havia pedras e espinhos.


Zao Tian passou a mão pelo rosto e confessou: "Isso tem sentido."


"Eu sei." Gu Ren confirmou.


"Mais sentido do que eu gostaria." Zao Tian argumentou.


"Eu sei disso também." Gu Ren respondeu.


Zao Tian então olhou para Moira novamente. Talvez porque pensar em enviar Gu Ren para uma missão daquelas ficava mais difícil quando havia uma criança dormindo ali, lembrando-o de que pessoas não eram peças. Gu Ren era seu irmão de juramento. Um dos principais ativos de Decarius. Um amigo. Um dos poucos que podiam estar numa sala pequena falando besteira sobre comida ruim e, minutos depois, se oferecer para entrar sozinho em uma negociação com uma raça orgulhosa, agressiva e profundamente desconfiada.


"Você tem certeza?" Zao Tian perguntou.


Gu Ren não respondeu com brincadeira dessa vez: "Tenho certeza de que quero ajudar o máximo que der. E tenho certeza de que não vejo outra opção melhor para resolver isso com a urgência que precisamos."


Zao Tian sustentou o olhar dele.


"Não estou dizendo que vou convencer os krovackianos com um sorriso e duas frases." Gu Ren continuou: "Talvez eu volte sem nada. Talvez volte com insultos, exigências absurdas ou ameaças. Talvez eles me recebam só para testar até onde podem me pressionar. Mas eu consigo entrar naquela conversa sem começar perdendo tanto quanto os outros nomes."


Zao Tian escutou, mas alertou. Ele tinha que fazer isso: "Isso ainda pode ser perigoso."


"Vai ser perigoso." Gu Ren corrigiu: "Não adianta dourar. Mas tudo agora é perigoso. A diferença é escolher quem tem alguma chance de completar a tarefa."


Ming Xue olhou para Zao Tian e confessou: "Ele está certo."


Zao Tian ficou calado por mais alguns segundos. Mandar Gu Ren significava mover uma peça preciosa para um tabuleiro instável. Significava aceitar que a confiança também é uma forma de risco. Significava admitir que, se queria uma coalizão real, não poderia proteger todos que amava mantendo-os longe das missões difíceis. 


Essa era uma mentira confortável. Uma daquelas que Ming Xiao o avisaria para não sustentar.


Por fim, Zao Tian assentiu: "Está bem."


Gu Ren não sorriu. Talvez porque entendesse o peso por trás da aceitação.


"Você irá falar com os krovackianos." Zao Tian disse: "Mas não sozinho em termos formais. Quero que leve uma comitiva pequena. Gente suficiente para não parecer descaso, pouca o bastante para não parecer uma ameaça."


"Concordo." Gu Ren respondeu.


Zao Tian então avisou: "Sem usar Rhazek’Zul."


Gu Ren respondeu: "Eu nem pensei nisso."


Depois de dizer aquilo, Gu Ren inclinou a cabeça e continuou: "Vou precisar de liberdade para negociar."


Zao Tian respirou fundo e respondeu: "Você terá. Só não prometa Armas do Espírito sem retornar antes a mim, e não ofereça reféns adicionais. Fora isso, o que você acertar será considerado com seriedade."


Gu Ren estreitou os olhos: "Considerado com seriedade não é o mesmo que cumprido."


Zao Tian explicou: "Com os orcs, Hatori tem histórico suficiente para receber liberdade plena. Com os krovackianos, nós ainda não sabemos nem onde está o chão. Eu confio em você, mas não posso te pedir para negociar no escuro e depois fingir que toda promessa feita sob pressão será automaticamente possível."


Gu Ren pensou por um instante e assentiu: "Justo."


Zao Tian então pediu: "Eu quero, também, que eles saibam que você fala por mim. Não como mensageiro. Como irmão."


Aquela palavra teve peso.


Gu Ren olhou para ele por alguns segundos, e a ironia habitual desapareceu quase por completo.


"Esse peso eu posso carregar." Gu Ren afirmou.


Ming Xue observou os dois em silêncio, com Moira ainda dormindo em seus braços. 


Havia algo curioso naquela cena. Um bebê, uma mãe, dois irmãos de juramento e uma guerra universal sendo costurada em voz baixa dentro de um quarto. A história provavelmente lembraria de mapas, tratados, batalhas e mortes. Talvez ninguém registrasse que uma das pontes mais improváveis com os krovackianos começou ali, entre uma criança adormecida e uma conversa que tinha começado com reclamações sobre comida ruim.


Enquanto isso, Zao Tian se aproximou de Gu Ren e colocou uma mão sobre o ombro dele: "Volte inteiro."


Gu Ren olhou para a mão, depois para ele: "Essa é a parte mais difícil da negociação…"


Zao Tian então respondeu: "E é a única parte que não estou disposto a negociar."


Gu Ren soltou sorriu e respondeu: "Então vou considerar uma ordem."


Por alguns instantes, os dois apenas se olharam. Não havia necessidade de novos juramentos. Eles já tinham feito os antigos, e os antigos ainda serviam. 


Depois, Gu Ren se levantou devagar, ajeitou a roupa e olhou mais uma vez para Moira enquanto dizia: "Ela vai crescer ouvindo histórias absurdas sobre todos nós."


Ming Xue respondeu: "Talvez algumas sejam suavizadas."


Gu Ren olhou para Zao Tian e comentou: "As dele não vão parecer reais nem suavizadas."


"Então conte as suas." Zao Tian disse.


Gu Ren brincou: "Boa ideia. Nas minhas, eu costumo parecer mais inteligente."


Zao Tian provocou: "Costuma?"


Gu Ren respondeu: "Sou comerciante. A versão final sempre melhora o produto."


Ming Xue riu, e Gu Ren caminhou até a porta, mas parou antes de sair: "Zao Tian..."


Zao Tian: "Sim?" 


Gu Ren: "Fique mais algumas horas aqui antes de voltar para o fim do mundo. Os krovackianos podem esperar até amanhã. Moira talvez acorde daqui a pouco. E, sinceramente, acho que ela negocia melhor do que todos nós. Pelo menos quando chora, todo mundo cede."


Zao Tian olhou para a filha adormecida… Depois assentiu: "Vou ficar."


Gu Ren saiu logo depois, deixando a porta entreaberta.


O quarto voltou a ficar calmo, mas a calma agora tinha outra textura. A missão krovackiana havia encontrado um nome. Não uma solução, mas um começo. Zao Tian ainda sentia a relutância no peito, a preocupação por enviar Gu Ren a um território tão incerto, o medo de que aquela escolha cobrasse um preço alto demais. Ainda assim, pela primeira vez desde que Ming Xiao fizera a pergunta sobre os krovackianos, ele não via apenas uma parede…


Ela finalmente via uma fresta.


Pequena.


Arriscada.


Mas real.


Ming Xue olhou para ele pensando e se sentiu na obrigação de dizer: "Você fez a escolha certa."


"Eu não sei...." Zao Tian comentou.


"Eu sei." Ela afirmou.


Zao Tian sentou-se novamente ao lado dela e olhou para Moira enquanto dizia: "Queria que as escolhas certas não parecessem tão erradas."


Ming Xue apoiou a cabeça de leve no ombro dele e respondeu: "Talvez esse seja o preço de ainda se importar."


Ao escutar aquilo, Zao Tian fechou os olhos por alguns segundos e apenas continuou escutando aquela respiração pequena, frágil e teimosa. E decidiu ficar mais um pouco.




O ÚLTIMO HERDEIRO DA LUZ -UHL | NOVEL

© 2020 por Rafael Batista. Orgulhosamente criado com Wix.com

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